Resenhas

The Beths – Jump Rope Gazers

Grupo neozelandês retorna mais maduro e segundo disco explora nostalgia da juventude noventista a partir de Indie Rock sentimental

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Ano: 2020
Selo: Carpark Records
# Faixas: 10
Estilos: Indie Pop, Indie Rock, Alternativo
Duração: 51'
Produção: Jonathan Pearce

Para todos os efeitos, The Beths é o sonho de todo adolescente dos anos 1990. Aquele estereótipo do jovem confuso com as mudanças da vida que coloca tudo de si em seu diário, começa a aprender uns acordes de guitarra e monta uma banda para, enfim, se expressar. Originada em Auckland, Nova Zelândia, a banda integra uma forte cena Indie local e se estabeleceu como grande revelação após o lançamento de disco de estreia, Future Me Hates Me, em 2018.

Quem nunca escutou a banda pode ter uma ideia do dilúvio emocional que permeia as suas canções: algo como o comecinho de Pixies, com uma sensibilidade Fiona Apple e um toque irônico e ríspido de Dinosaur Jr. É a partir dessa mistura multifocal e aparentemente caótica que a banda constrói seu segundo disco, um trabalho que consegue potencializar o aspecto nostálgico e jovial de The Beths.

Jump Rope Gazers é um exercício de nostalgia, mas não apenas por simples saudosismo. A estética desenvolvida aqui é cercada de sentimentalismo Pop dos anos 1990, um instrumento eficaz para atingir o ouvinte millennial em cheio com um soco vindo do passado. Seria muito simplista generalizar a sonoridade de The Beths como “adolescentesca”, já que parte do charme do disco é fazer com que o ouvinte se sinta aparentemente seguro nessa ingenuidade jovem – até, de repente, ser arrebatado pela emoção da sinceridade exposta no repertório.

Diferente do primeiro registro, aqui há uma investigação mais intensa, que lida com temas como saúde mental, ansiedade, a distância, o luto e o amor. A maturidade dos temas acompanha o crescimento dos integrantes da banda, que, em Future Me Hates Me, ainda tinham o projeto como um hobby e mantinham seus empregos anteriores. Agora, a banda é vivida em intensa paixão e toda essa devoção é sentida em cada acorde de guitarra.

A rebeldia já se revela nos primeiros power chords distorcidos de “I’m Not Getting Excited”, uma expressão da máxima teen “não é uma fase, mãe, é minha vida!”. A emoção e o romance adolescente infinito têm espaço especial na faixa-título “Jump Rope Gazers”, trilha sonora de uma comédia romântica que nunca existiu, mas imaginada por meio da melancolia agridoce do arranjo. O meio termo entre rebeldia e romance meloso também aparece na ágil “Out Of Sight”, que ecoa a confusão frágil típica da juventude. É possível ainda identificar um flerte com o Emo da metade dos anos 2000 na polida “Mars, the God of War”. Encerrando o trabalho – em uma pegada Indie aos moldes de Real Estate – “Just Shy of Sure” não poupa esforças em trazer um refrão extremamente pegajoso, repleto de harmonias vocais. Um pequeno hino geracional por acidente.

The Beths claramente se mostra mais maduro. E essa maturidade, ironicamente, é exposta explorando os clichês de um Indie Rock adolescente, sem tentar negar isso. Como um processo de terapia, em que o passado não é uma vergonha, mas matéria-prima preciosa para uma investigação. A nostalgia, que deveria ser fuga, aqui é enfrentamento e traz novos significados. Jump Rope Gazers é um momento de desabafo que certamente nos convida a fazer o mesmo. Como uma grande reunião de amigos, tão necessária em tempos de isolamento social.

 (Jump Rope Gazers em uma faixa: “Jump Rope Gazers”)

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ARTISTA: The Beths

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.