Resenhas

Transmissor – De Lá Não Ando Só

Disco da banda é destaque, rendendo comparações com Clube Da Esquina

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Ano: 2014
Selo: Ultra Music
# Faixas: 12
Estilos: Rock, Pop, Folk Rock
Duração: 43:45
Nota: 4.5
Produção: Carlos Eduardo Miranda

A impressão que temos após ouvir as canções presentes nesse terceiro disco dos mineiros da Transmissor é que estamos diante do melhor álbum brasileiro deste 2014, mesmo faltando muito tempo para o ano acabar. A outra impressão que salta aos ouvidos é que, provavelmente, De Lá Não Ando Só não receberá o reconhecimento que merece. O pessoal da banda não parece afeito a panelinhas indies, não segue os parâmetros estéticos das formações da combalida cena jovem brasileira e teima em usar referências mais recentes da música mundial para turbinar a revisitar padrões mais setentistas do Rock e do Pop. Mas é tudo elíptico, nada retrô, cheio de referências conhecidas e com muito talento. A produção do veterano Carlos Eduardo Miranda confere a profundidade necessária, mas é quase possível arriscar que os maiores méritos são do (agora) sexteto mineiro, com Pedro Hamdan (bateria), Daniel Debarry (baixo), Henrique Matheus (guitarra, bandolim), Jennifer Souza (voz, guitarra e violão), Leonardo Marques (voz, guitarra, teclado) e Thiago Corrêa (voz, violão e teclado).

A mescla praticamente perfeita de Clube da Esquina (Lô Borges é fã declarado da banda) com sonoridades Pós-Punk oitentistas e Rock mais clássico é o grande ponto de distinção de Transmissor no cenário nacional: parece que seus integrantes ouvem e conhecem artistas que rompem a barreira estética Los Hermanos/The Strokes, principal fonte de inspiração em voga por aqui. Hoje em dia, essa impressão é uma credencial valiosa para prestarmos atenção no que eles dizem. Gravado em 2013 e finalizado neste ano, De Lá Não Ando Só é um álbum mais roqueiro e subjetivo, em comparação com Sociedade do Crivo Mútuo (2008) e Nacional (2011).

As sonoridades iniciais de Queima O Sol parecem “falar” o título da canção logo ao iniciar o disco. As letras são praianas, contemplativas, a trama de guitarras, os efeitos e a bateria são a metade perfeita para os vocais harmoniosos. Só Um é o mais próximo que uma banda brasileira dos anos 2010 é capaz de chegar da sonoridade Prog-mineira 14 Bis, lembrando clássicos como Perdido Em Abbey Road, o que, acreditem, é muito. 25 Horas por dia já retoma o caminho do mar, novamente com efeitos de guitarra sugerindo profundidade e submersão. Os vocais de Jeniffer são doces e esparsos, trazendo um misto de angústia e paz. Todos Vocês vem em seguida e mostra que Transmissor pode chegar muito perto da sonoridade clássica de Clube da Esquina. A levada aerodinâmica de Mais Quente Do Que Se Quis é puro passeio na praia, lembra bandas oitentistas e noventistas inglesas tentando reproduzir a umidade da orla ou a precipitação atmosférica sobre a cidade numa tarde de sábado. É tudo belo, harmonioso e cheio de classe, traduzida em efeitos discretos e a medida exata entre doçura e pesinho de guitarras.

Nossas Horas é mais uma visita ostensiva ao cenário de gravação do antólogico disco duplo de Milton Nascimento e Lô Borges, lembrando Nada Será Como Antes em seus primeiros momentos, muito sutilmente, o bastante para provocar no ouvinte aquela simpática sensação de “déjà ouvi”. Nada Pra Te Devolver é esparsa, onírica e típica das horas que antecedem a aurora, independente de onde se esteja. Uma levada de bateria e efeitos introduzem a brandura de Retiro, mais uma beleza Pop, quase adentrando o território das baladas, até hoje o grande indicativo se uma banda ou artista é realmente bom. A faixa título já retoma as sonoridades oitentistas com vigor e vocais belos. O Que Você Quer Ouvir tem guitarras clássicas e dobradas, vozes quase sussurradas enquanto progressões guitarrísticas introduzem a canção seguinte, Canso A Cabeça, mais uma na interseção territorial entre as sonoridades melancólicas inglesas e o Pop mineiro mais clássico dos anos 1970. Casa Branca, a derradeira canção, é um crescendo de tristeza e paisagens melancólicas em meio a um clima que não explode em grandes apoteoses, mas que mostra com toda força que a canção muda, a vida passa e nos transforma.

O terceiro disco da banda Transmissor é seríssimo e merecedor de toda a sua atenção. Sem qualquer exagero. Tem lirismo, virtuosismo, bons vocais, boa produção, senso melódico e atenção às inspirações e influências sem qualquer medo de parecer velha. É uma banda que, já desde tão cedo, mostra não ter receio ou implicância com a passagem do tempo. E, amigos, não adianta, ele sempre passa.

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BOM PARA QUEM OUVE: Lô Borges, Fleetwood Mac, The Cure
ARTISTA: Transmissor
MARCADORES: Folk Rock, Ouça, Pop, Rock

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.