Resenhas

Turnstile – Glow On

Em terceiro disco, banda de Baltimore se abre a experimentações e renova a agressividade do Hardcore

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Ano: 2021
Selo: Roadrunner Records
# Faixas: 15
Estilos: Post-Hardcore, Indie Rock, Garage
Duração: 34'
Produção: Brendan Yates e Mike Elizondo

Se o Rock não morreu é porque ainda existem bandas e artistas que se despem de um purismo torto e são capazes de encarnar um espírito experimental – sem, entretanto, perder o peso característico. Um destes casos é o Turnstile. Originado de Baltimore, o grupo americano vem de um forte cenário Hardcore/Emo que emergia do começo da década de 2010. Um de seus primeiros registros, o EP Step To Rhythm (2013), bebe direto da rapidez do Hardcore californiano de bandas como Rancid, Suicidal Tendencies e Bad Religion – repleto de acordes ágeis, batidas frenéticas e um vocal agressivo e contestador. Mas Turnstile, apesar de reverenciar este cenário, nunca pareceu fazer dele um norte exclusivo. É possível notar uma tentativa de se mover por entre outras referências como Metallica e até algo com mais suingue como Living Colour. E essa flexibilidade sonora é ponto de partida decisivo para a construção de um ímpeto que vai além das convenções roqueiras. Oito anos após este primeiro movimento, o grupo apresenta sua abordagem mais ambiciosa até aqui. Apesar de ter permanecido mais tímido no disco anterior, Time & Space (2018), agora, o experimentalismo encontra um espaço ainda mais prolífico para se propagar e o resultado é contagiante.

GLOW ON traz um Turnstile convicto de sua vontade de experimentar, ao mesmo tempo, sem abrir mão da pungência do Rock. Mas a aventura é mais expansiva – surgem referências do R&B, Hip Hop, Pop, Música Eletrônica e até mesmo o Samba. Tudo isso aparece de maneiras diferentes pelo disco, seja concentrando um gênero em uma faixa, ou montando um quebra-cabeça com elementos retirados de diferentes partes. Particularmente no segundo caso, encontramos uma das melhores composições do grupo e, contrária à suposição de que isto afetaria a coesão do disco, somos surpreendidos por uma mistura das mais apuradas. Aquela faísca agressiva do Rock é catapultada pelo elemento da surpresa – de não saber para onde o grupo vai nos levar (ou jogar, no caso).

O arpeggio inicial de “MYSTERY” pode até fazer o ouvinte pensar que se trata de um disco de R&B, mas os primeiros acordes explosivos de guitarra nos mostram que este é, inegavelmente, um trabalho de Turnstile. “UNDERWATER BOI” é um híbrido de um Pop mais calmo, mas que, pela lentidão do ritmo, encontra espaço para uma guitarra caprichada no peso. “ENDLESS” traz um manejo habilidoso entre a percussão do New Metal dos anos 2000 com a rapidez (e a rispidez) do Punk californiano. “WILD WRLD” já antecipa a voracidade do Hardcore, e “NEW HEART DESIGN” emprega timbres dos anos 1980, na tentativa de dar um toque de nostalgia a esta mistura já extremamente bem temperada. Por fim, “LONELY DEZIRES” soa como um Ramones tristão, unindo a rigidez dos acordes com reverbs infinitos que vão se prolongando e perpetuam.

Turnstile nos prova que o Rock está vivo e que ele transcende o conservadorismo chato que ainda é propagado pelos tiozões por aí. O experimentalismo ganha novas proporções, credenciando a obra como um inegável destaque na discografia da banda. Aqui, o Rock não parece querer ganhar o ouvinte na força e na porrada – é mais ágil e estrategista. GLOW ON não é uma exibição de poder e agressividade inócua, mas um sagaz movimento que procura cada espaço propício para encher o ouvinte de energia.

(GLOW ON em uma faixa: “WILD WRLD”)

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ARTISTA: Turnstile

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.