Resenhas

Victoria Monét – JAGUAR

Em seu primeiro disco solo, compositora de Ariana Grande e Fifth Harmony apresenta R&B inventivo e emocional

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Ano: 2020
Selo: Tribe Records
# Faixas: 9
Estilos: R&B, Neo Soul
Duração: 25'
Produção: Tim Subly, D'Mile, xSDTRK, Deputy, SG Lewis, Bregma Capa:

Um dos processos mais interessantes da indústria da música é quando um compositor, que vivia pelos bastidores, lança um projeto autoral. Esta transição de “compor para alguém” para “compor para si mesmo” representa uma oportunidade para os ouvintes conhecerem a fundo um mundo completamente inédito de referências e possibilidades musicais, que, até então, aparecia em aperitivos a partir de outras vozes.

Isso é o que tem acontecido com Victoria Monét, compositora que vem aos poucos tateando os caminhos de uma sonoridade própria, saindo das asas de grandes artistas como Ariana Grande, Fifth Harmony e Nas. Destes movimentos tímidos, surgiram dois EPs complementares: Life After Love pt. 1 e pt. 2 (2018) – registros que nos davam indícios dos gêneros com os quais Victoria se sentia mais confortável em dividir seus anseios e pensamentos. Mas o adjetivo “tímido” parece ser um tanto inadequado para definir o caldeirão de referências de Victoria.

O teor simbólico do lançamento já está presente com força em seu título: JAGUAR. Apesar deste felino ser comumente associado à ideia de sedução, no mundo de Victoria o animal é uma perfeita metáfora dos movimentos feitos para capturar a atenção. Permeado de muito Soul e R&B, o disco explora texturas suaves e batidas repletas de groove – nada aqui é rígido ou engessado demais. E é a partir dessa aparente timidez que Victoria constrói sua estratégia: de repente, ela nos surpreende (ou nos ataca) com uma enxurrada de sentimentos intensos.

Apesar de ter comentado em entrevista que não sente que tem a voz potente de mulheres como Beyoncé e Whitney Houston, a sutileza e o controle vocal que ela exerce em diferentes gêneros musicais são os elementos que dão o verdadeiro poder e encanto ao disco. Mesmo disputando o espaço com arranjos de cordas, baixos gravíssimos e metais estridentes, Victoria se faz inegavelmente presente. Cada faixa é uma nova oportunidade para perceber de que maneira ela nos chamará atenção, sempre muito ardilosa e sutil. Uma cantora realmente camaleônica.

Talvez por isso, o disco tenha tantos gêneros misturados: para aproveitar ao máximo o que Victoria é capaz de fazer. “Moment” já deixa claro o protagonismo vocal, sem sacrificar, contudo, uma construção tipicamente Neo Soul. “Dive”, por sua vez, é expressa em um R&B que flerta com o flow melódico, tudo amarrado por uma atmosfera que reverbera Motown. O single “Experience” conta com participação de Khalid e do produtor SG Lewis, em uma espécie de “Say So”, de Doja Cat, porém mais maduro e menos Tik Tok. Ares de sedução ganham espaço na excelente “Go There With You”, canção que bebe de referências diretas de Mary J Blige e Toni Braxton. Por fim, “Touch Me” traz para a mesa uma batida hipnótica repleta de comentários de sintetizadores psicodélicos.

JAGUAR traz Victoria em sua totalidade. A forma como somos aguçados a caminhar pelas composições e os caminhos ocultos do disco trazem uma experiência interessante. Pode parecer um disco para relaxar, mas ele pede do ouvinte o papel ativo de desvendar e de manter-se alerta. A qualquer momento podemos ser surpreendidos por um arsenal de emoções vindo de Victoria Monét, agora, na linha de frente.

(JAGUAR em uma faixa: “Dive”)

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MARCADORES: Victoria Monét

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.