Resenhas

Weaves – Weaves

Quarteto canadense equilibra carisma vocal, experimentalismo e melodias Pop

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Ano: 2016
Selo: Kanine Records
# Faixas: 11
Estilos: Rock Alternativo, Pop Alternativo, Pop Rock
Duração: 36:09
Nota: 3.5
Produção: Alex Newport

Bons discos são aqueles que nos fazem pensar, certo? Se essa máxima, formulada agora por mim, no dia do meu 46º aniversário, for realmente verdadeira, podemos dizer que este trabalho do quarteto canadense pertence a essa boa estirpe de álbuns. As reflexões que ele trouxe não são essencialmente por seu approach musical, ainda que este seja bem interessante, mas pela secular disputa – em termos de bandas e artistas de Rock – entre a capacidade de soar artístico e popular. Qual é o melhor caminho? Ser vanguardista, audacioso ou ser capaz de produzir melodias prontas para as paradas de sucesso. Aliás, uma pergunta: ainda existem paradas de sucesso? No caso de Weaves, a equação tem bem dosados 50% para cada lado. Os sujeitos são capazes de extrair algum suco do já maçerado Rock Indie deste início de século, preservando suas qualidades artísticas e, além disso, forjar algumas canções que tocariam no rádio, caso ele ainda existisse com o mesmo papel novidadeiro de 50 anos atrás.

Além de lidar com os dois lados da Força, Weaves ainda tem um diferencial poderoso: a cantora Jasmyn Burke. Com voz privilegiada, esperteza performática e uma empatia imediata, Jasmyn lidera o quarteto sem qualquer problema, conferindo uma identidade vocal feminina que, convenhamos, sempre funciona, desde que seja empreendida por alguém interessante. Jasmyn passa longe do tipo “capa de revista” e cativa imediatamente. O restante do grupo, formado por Morgan Waters (guitarra), Zach Bines (baixo), Spencer Cole (bateria), consegue pegar emprestados tiques do chamado Math Rock e da versão atual do Art Rock, reempacotar tudo numa cesta de café da manhã superpop, tirando qualquer dificuldade de percepção das virtudes musicais do grupo. Em meio a tanta gente com pose de genial, é um pequeno bálsamo ouvir as criações dessa galera.

Os acordes enguitarrados de Tick, o primeiro single e faixa de abertura, são 150% devedores aos primeiros trabalhos de Pixies, mas sem que achemos que a banda chupinhou a vitoriosa formação oitentista de Boston, Massachussets, pelo contrário. Parece tudo com jeito de novidade e pequena revolução. A canção seguinte, Birds & Bees, poderia ser chata se Jasmyn não estivesse à frente dos vocais. Sua performance é na fronteira entre a pretensão e a largação, com os rapazes levando o instrumental para o leve pendor da anarquia instrumental. Candy é exemplo de canção barulhenta, angular, mas que, de alguma forma, se presta a dancinhas e karaokes. Ela e a seguinte, Shithole, também são devedoras do cânon pixiano de composição Rock, mas com aquela cara de novidade.

Quando você pensa que pode ter se entusiasmado demais com a banda, chega Eagle, quinta faixa do disco. Com levada sutil, sexy e climática, a canção vai te levando pelos vocais doces, mas com a certeza que algo está errado e vai explodir a qualquer momento. A banda vai dando pinta de que a canção vai mudar totalmente e você fica preso, esperando. O máximo que acontece é uma guitarra alta aqui, um clima ali e tudo acaba com gosto de quero mais e certo desconcerto. Two Oceans também tem essa pinta de canção pervertida mas investe em linearidade, com novo destaque para os vocais. Human é dançante, Coo Coo é experimental sem ser chata, cheia de mudanças de andamento e quebras de bateria, sem comprometer seu potencial, Sentence é o abraço do grupo ao seu lado Art Rock, algo exagerado e longo demais, dando espaço ao pique incendiário de One More, feita para sair pulando por aí como se não houvesse amanhã. Stress fecha os trabalhos com mais misto de doçura e perversidade. No ponto.

Em meio a tanta gente soando moderna sem competência ou propriedade, esse pessoal de Toronto parece ser assim por absoluta vocação. Não é disco para mudar sua vida, mas é garantia de uma boa dose de Rock neste momento histórico que vivemos. Pode não ser o melhor tempo para as guitarras, mas Weaves faz tudo com sinceridade, autenticidade e zero de pose. E isso, gente, é bastante. Ouçam.

(Weaves em uma faixa: Tick)

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BOM PARA QUEM OUVE: Pixies, Metric, Yeah Yeah Yeahs
ARTISTA: Weaves

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.