Resenhas

Yellow Days – A Day in a Yellow Beat

Com cara de mixtape, segundo álbum do projeto de George van den Broek celebra o Soul, o R&B e o Funk

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Ano: 2020
Selo: Sony Music
# Faixas: 23
Estilos: Indie, Soul, Funk, R&B
Duração: 77'
Produção: Blue May, Nick Earholtz, Nate Fox, Tom Henry, Mike Malchicoff, Nate Mercereau, Dave Rosser

Viajar no tempo é possível quando o assunto é produção musical. George van den Broek sabe muito bem disso e propõe um mergulho de nostalgia em A Day in a Yellow Beat, seu segundo álbum sob a alcunha Yellow Days.

Ao longo de quase uma hora e vinte minutos, o músico britânico resgata referências musicais que se desenvolveram na segunda metade do século passado – Soul, R&B e Funk, por exemplo. Aos 20 anos de idade, ele constrói um imaginário romantizado daquela época através do filtro da cultura pop e, é claro, da facilidade de pesquisas musicais caprichadas, dignas de quem cresceu na era do streaming.

Esse movimento não é exclusivo, representado por uma vertente muito celebrada dentro do Indie com a qual Yellow Days dialoga. Quem acompanha Thundercat, Kindness e tantos outros produtores, cantores e até bandas percebe esse apreço por um som de antigamente, ainda mais quando ele chega até nós com a tecnologia de hoje. Ou, mais importante ainda, quando ele é produzido com a mentalidade contemporânea.

Digo isso porque A Day in a Yellow Beat é um daqueles álbuns com cara de mixtape, ou mesmo de playlist, com um norte muito específico para se direcionar e diversas pequenas surpresas ao longo do caminho. Por exemplo: para adornar seu repertório, George traz desde uma entrevista com Ray Charles (logo na abertura do disco) até diálogos de filmes antigos, o que reforça a ideia de que estamos ouvindo uma colagem de ideias sobre o passado.

Essas breves interferências ajudam a dar fôlego a uma obra que, tamanha a coesão estilística entre suas músicas, poderia ficar cansativa. Não que as faixas sejam necessariamente parecidas entre si, mas todas apostam no mesmo clima ensolarado e colorido. A sensação que fica é a de que o disco é um trabalho primeiramente de exercícios estilísticos, e vem logo atrás a vontade de desenvolver essa única vibe – daí também a cara de playlist que o álbum tem.

Por isso também as participações são preciosas, já que elas apresentam uma variedade muito bem-vinda: Shirley Jones está em duas faixas, uma delas com Nick Walters, enquanto Mac DeMarco aparece em uma das melhores do repertório, “The Curse”, um dos poucos pontos do disco em que George desacelera e abraça o lado mais melancólico do Soul. Ao lado de “Be Free” e “Keep Yourself Alive”, é uma faixa que mostra o cantor em sua melhor forma vocal.

É interessante notar como ele experimenta bastante com a voz, a ponto de deixar de lado seu potencial de vocalista em diversos momentos para caber melhor na estética emulada. Ao final da audição, fica a sensação de uma obra acima da média em sua qualidade, mas que peca por cair na armadilha da ansiedade contemporânea de sentir que o suficiente está apenas na soma de muitos fatores, e de que precisa parecer demais com o que já conhecemos.

(A Day in a Yellow Beat em uma faixa: “Keep Yourself Alive”)

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ARTISTA: Yellow Days

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.