Resenhas

Adrianne Lenker – songs / instrumentals

Isolamento, fim de um relacionamento e uma profunda investigação interna constroem o novo disco solo (duplo) da guitarrista do Big Thief

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Ano: 2020
Selo: 4AD
# Faixas: 11
Estilos: Folk, Singer-songwriter
Duração: 39'
Produção: Adrianne Lenker e Philip Weinrob

Volta e meia aparecem discos sobre términos. São experiências marcantes e os episódios narrados e digeridos pelos autores são elevados a um nível emocional intenso, permitindo rever pontos decisivos de uma relação. Talvez este seja o motivo pelo qual são tão populares: permitem que o ouvinte possa brincar com sua própria experiência e controlá-la de uma forma quase sadomasoquista, identificando aquela dor específica em forma de canção e a revisitando quando bem entende.

Discos assim, quando bem executados, captam a essência de episódios para além das palavras, evocando sensações que muitas vezes apenas podemos construir em pensamento. O que poderia ser facilmente simplificado como um disco de lamúrias e “mimimi” mostra nuances intensas e são justamente essas diferentes tonalidades que Adrianne Lenker, guitarrista do Big Thief, usou para compor seu disco solo.

Na verdade, songs/instrumentals é composto por dois discos separados, porém pensados como um produto só. Os dois trabalhos foram criados considerando um mesmo cenário: o recente término de uma relação e a necessidade de dar voz e significado à experiência vivida. Soma-se a isso, a quebra de uma exaustiva rotina de turnês e gravações de discos sucessivos ocasionada pela pandemia mundial. Todos estes motivos levaram Adrianne a realizar um típico movimento de discos sobre término de namoro: se isolar (nesse caso, mais ainda). Ela alugou um chalé nas montanhas e compôs o repertório – bem ao estilo Bon Iver.

Isolar-se trouxe a condição propícia para que Adrianne construísse um olhar sensível sobre si mesma e seus próprios apelos. De certa forma, é assustador o tanto que a compositora consegue alcançar neste disco, usando tão poucos elementos. Equipamentos de gravação exclusivamente analógicos, um violão e alguns elementos percussivos: tudo o que ela precisa para realizar este mergulho interno. Talvez a ideia de trazer esse minimalismo venha justamente de tirar o foco de um arranjo complexo (embora decididamente essencial para a construção do disco) e focar na construção imagética de Adrianne.

As palavras são as verdadeiros protagonistas e o instrumento essencial é sua voz – quebradiça, frágil e de timbre com esforços pontuais. Parece que ela se poupa de fazer um grande esforço, apenas utilizando o necessário para entregar sua mensagem a nós. Uma mensagem que, apesar de utilizar elementos mansos, tem uma potência enorme. Uma fragilidade que constrói uma inabalável persona e que, por sua vez, nos arrebata com sua sinceridade.

A primeira parte, como o nome anuncia, é composta por canções, no sentido mais tradicional do termo. songs reúne 11 criações cujos temas não se concentram apenas no término de sua relação – embora este seja o pretexto decisivo. Adrianne revista temas como a devoção e a magnitude de se apaixonar (“anything”); o poder tenebroso de uma memória (“heavy focus”); o vazio da paralisia do sono (“zombie girl”); as concessões desastrosas do amor (“dragon’s eye”), entre outros. O grande barato da lírica de Adrianne é a capacidade de abarcar todo um espectro complexo de emoções a partir de palavras relativamente simples – mas que combinadas exigem tempo e interpretação do para que significados ocultos e subliminares sejam captados. Da mesma forma, ao que tudo indica, precisou para compreender seus próprios significados.

O segundo disco dispensa o uso das palavras para propiciar um segundo mergulho emocional. Desta vez, não há palavras para nos guiar pelas intenções de Adrianne. Apenas emoções em sua forma instrumental, o que talvez torne esta segunda metade ainda mais profunda e catártica. “music for indigo” e “mostly chimes” somam quase 40 minutos de duração, quase  a soma das 11 faixas do primeiro disco. A compositora compõe uma série de movimentos imprevisíveis e nos movimenta do mais alto ápice de êxtase a um declínio íngreme até o fundo da melancolia. Adrianne é extremamente hábil nestas mudanças bruscas, o que certamente contribui para a forma como este disco nos envolve.

Adrianne Lenker viaja para longe a fim de isolar as partes mais significativas de seu ser. Seja por meio de canções ou de faixas instrumentais, seu talento em investigar as minúcias de suas emoções fica extremamente claro neste disco em duas partes. Pode ser um álbum “difícil” de encarar para alguns ouvintes, mas traz uma recompensa valiosa e transformadora.

(songs/instrumentals em uma faixa: “anything”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.