Resenhas

André Mendes – Amor Atlântico

Cantor famoso por seu trabalho nos anos 90 produz um notável terceiro disco, entrando para a lista dos melhores álbuns nacionais do ano

 3,551 total views

Ano: 2013
# Faixas: 10
Duração: 21:13
Nota: 4.5
Produção: Jorge Solovera

Este é o terceiro disco da carreira solo de André Mendes. Nos anos 90, o cantor e compositor soteropolitano comandava a Maria Bacana, formação que chegou a ter seu primeiro disco lançado pela gravadora Rock It, de Dado Villa Lobos, que também produziu a bolacha, que obteve sucesso e rotação médios na MTV e rádios rock aqui e ali. Com a banda desfeita há tempos, André enveredou com sua verve e violões, em busca de composições reflexivas e com inteligência acima da média nacional. Seus dois discos anteriores, Bem Vindo À Navegação (2011) e Enfim Terra Firme (2012), trazem momentos inspiradíssimos. Não é diferente com esse novo trabalho.

Mantendo o apelo marítimo em seus títulos e visões musicais, André concebeu um disco econômico e belo, talvez a antítese do que entendemos por “música praiana”, ainda que esta seja a sua intenção. A praia de André, pelo menos em Amor Atlântico, é de inverno, daqueles dias em que o sol é a única saída para escapar do frio, uma vez que não faz calor. É um disco raro, conceitual e cheio de nuances. Dá a impressão de um parentesco com outros trabalhos à beira mar, como Invincible Summer, de Kd Lang, mas a comparação é imprecisa por essa questão climática, digamos. O verão da canadense Kd é o sol trazendo o céu azul e a quentura, a estação de André é fria, cinza, não faz sol e sua intenção é essa mesmo. As Velhas Ondas abre os trabalhos, violão e voz em falsete, melodia triste, lembrando tempos idos, diante da perenidade do mar e de como ele continuará presente após todos os nossos pequenos dramas tiverem – ou não – solução. Sim, Deixa Fluir, Só Lembro e Lobo Só trazem variações sobre o amor e a saudade, além de alternâncias vocais interessantes, sendo que as duas últimas remetem a hipotéticas canções perdidas da Legião Urbana, dessas que nunca existiram mas que se tornam possíveis nesse contexto. Uma gaita ao longe pontua a letra de Maldito, enquanto Tchau, Jorna revela a persona política de André, alertando para a necessidade de prestar atenção às armadilhas da mídia e como elas comprometem a revelação de uma verdade cada vez mais rara.

A melhor canção de Amor Atlântico é a belíssima Casa Amarelo Ouro, com acordes de violão em elipse e uma letra com o verso “o teto não é só o teto, é só uma sensação de falsa segurança” e uma performance vocal que mostra versatilidade e um inteligente uso do falsete em meio a novos fantasmas de Renato Russo. A trinca final, Nuvem Branca Norte Sul, Tempo de Se Jogar e Amor Atlântico seguem no passeio na beira da praia ao entardecer, algo como se o clima e a mensagem da clássica canção de Tom Jobim, As Praias Desertas, fossem evocados em pleno 2013, com um não-luau, um não-brilho de sol.

Belo disco, direto para a lista de melhores nacionais deste ano.

 3,552 total views

ARTISTA: André Mendes
MARCADORES: Ouça

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.