Resenhas

BENEE – Hey u x

Acompanhada de nomes como Grimes, Lily Allen e Kenny Beats, sensação neozelandesa do TikTok usa estereótipos da geração Z a seu favor

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Ano: 2020
Selo: Republic Records
# Faixas: 13
Estilos: Dream Pop, Indie Pop, Bedroom Pop
Duração: 44'
Produção: Joshua Fountain, Djeisan Suskov, Jonah Christian, Kenny Beats

Qualquer pessoa fora da Geração Z que tenha ousado se aventurar pelo TikTok deve ter percebido que lá é uma grande terra de ninguém. Apesar de a maioria das redes sociais trazerem essa sensação de que há um monte de coisa acontecendo, parece que especificamente no caso do TikTok os conteúdos e sua respectiva difusão tomaram uma velocidade nunca antes vista. Assim, apenas uma geração tão rápida e nascida em uma internet consolidada poderia ser capaz de desvendar as suas potencialidades. Assim, também é curiosa a forma com que a música está sendo consumida, ressignificando a importância de coreografias próprias e, até mesmo, popularizando trechos de composições ao invés dela em sua totalidade. É em meio a este estranho país das maravilhas que a neozelandesa BENEE tem ganhado cada vez mais popularidade, tornando-se uma das artistas mais escutadas da plataforma.

BENEE vem de uma safra de jovens artistas que encontrou um lugar seguro nas sonoridades do Bedroom Pop. Mas ao contrário de nomes como TOPS e Clairo, BENEE construiu seus singles para além do Lo-Fi. Na verdade, grande parte do apelo de sua produção vem justamente da união entre a simplicidades dos arranjos deste Pop de quarto e timbres de alta fidelidade – tudo extremamente bem mixado, dando um aspecto orgânico ao conjunto da obra. Seu principal hit é “Supalonely”, canção em que divide os vocais com Gus Dapperton, outro grande nome do Bedroom Pop. A faixa ganhou repercutiu fortemente entre os usuários do TikTok, principalmente pela batida cativante, que permitia uma coreografia cheia de suingue e movimentos amplos. Uma composição repleta de referências Disco e revisitadas sobre a suavidade do Pop caseiro.

Considerando seu sucesso dentro de uma rede social tão ágil quanto o TikTok, seria natural concluir que BENEE fosse mais um caso de one hit wonder. Mas seu disco de estreia, Hey u x, nos prova que BENEE é uma artista encorpada e repleta de referências fantásticas. Com 20 anos, ela é capaz de produzir um trabalho que inclui o Bedroom Pop apenas como uma parte de seu rico repertório. Há momentos nitidamente influenciados pela Disco da década de 1980, além de pinceladas da música eletrônica hiperativa dos anos 2000.

Há espaço para chorar com baladas adolescentes, mas também para realizar aquelas danças que nossos pais faziam e nos causavam vergonha alheia. Dessa forma, o disco funciona como uma espécie de estudo de caso de como as gerações mais novas estão apreendendo referências passadas sob novas óticas. BENEE mistura suas referências com o descompromisso e a audácia próprios de sua geração.

Em “Happen To Me”, por exemplo, é possível ouvir na estrutura rítmica e no riff de guitarra alguma influência de Radiohead (“Weird Fishes”) acoplada à fragilidade vocal típica dos hinos adolescentes contemporâneos. Acompanhada de Grimes, a compositora alterna seu foco em “Sheesh”, canção que se concentra totalmente na velocidade e peso da música Trance da metade dos anos 2000. BENEE reserva também seu olhar para a música de sua adolescência recém findada, em um Trap suingado que ganha a participação especial de Lily Allen e Flo Milli. As baladas adolescentes repletas de melodrama são representadas na dura “A Little While”, uma ponte com a sonoridade de sua contemporânea Clairo. Por fim, o susto com o título de “C U” passa rapidamente com os primeiros e mansos acordes de violão, referenciando um Folk gélido entre Bon Iver e Sheryl Crow.

O disco de estreia de BENEE nos mostra o quanto novos artistas estão dispostos a ressignificar gêneros consolidados, a partir de conexões extremamente rápidas. Faz sentido que uma artista consagrada no TikTok conserve as mesmas características desta rede social: plural, multirreferencial e, por vezes, caótica. Tudo isso vem, contudo, amarrado de forma extremamente coesa. Um turbilhão amarrado com fita de cetim.

(Hey u x em uma faixa: “Sheesh”)

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ARTISTA: BENEE

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.