Resenhas

Bicep – Isles

Segundo disco do duo britânico coloca produção diversa e afiada a serviço de proposta confessional

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Ano: 2021
Selo: Spells On The Telly
# Faixas: 31
Estilos: Eletrônica, Dance Music
Duração: 49'
Produção: Bicep

Quando pensamos em músicas confessionais e que exploram aspectos sentimentais do autor, a Música Eletrônica não é exatamente o primeiro gênero que nos vem à mente – muito por conta da percepção um tanto generalista de que arranjos, timbres e samples se sobrepõem às letras. É diferente, por exemplo, de uma canção Folk, em que letra e música andam juntos, uma complementando a outra, em uma mistura sinestésica de emoções e vivências. Mas, como dito, essa ideia, cada vez mais, é mesmo generalista. Especialmente durante a última década, a música eletrônica se tornou um veículo muito rico para que produtores pudessem transmitir suas experiências particulares, vide a popularização do Bedroom Pop e Lo-Fi.

Apenas um notebook é necessário para que experimentações audaciosas simbolizem ansiedades e alegrias de diferentes músicos. Além disso, o fato da música eletrônica ser uma espécie de amálgama de diferentes referências sonoras a coloca como uma linguagem que serve a diversos propósitos e que se encaixa no amplo espectro emocional de cada compositor.  Apesar de o duo britânico Bicep precisar de um pouco mais do que um notebook, a sinceridade e o manejo de sua estética sonora deixa claro como a produção é mais do que uma trilha sonora para clubes. Cada faixa é um pedaço da história de Matt McBriar e Andy Ferguson e, se em seu primeiro registro, essa característica ficou um pouco mais tímida, o novo disco faz questão de deixar isto bem evidente –tanto pela extensa paleta de sons como pelo significado que Isles abarca.

Um ar de maturidade invade as 15 faixas deste registro. Temos a sensação de que quatro anos provocaram uma mudança significativa na forma como Bicep produz seus discos. Aliás, “mudança” é uma das palavras-chave desse trabalho. A intenção era expressar, a partir de recortes e diferentes ambientações, todas as grandes mudanças que ocorreram na carreira do duo, desde a saída de Belfast até chegar em Londres – mudança que já completa quase 10 anos. Portanto, Isles não se restringe apenas a passagens atuais, mas a momentos decisivos da vida dos dois integrantes. Junto desses momentos, emoções intensas e até mesmo contraditórias se estabeleceram, tornando-se matéria-prima de inspiração. Isles pretende sintetizar estes episódios por meio de sensações de nostalgia, isolamento, euforia e introspecção. Segundo eles, é uma concretização do sentimento de “querer deixar e, ao mesmo tempo, querer retornar”.

Assim, o que poderia ser chamado simplesmente de eclético apreende uma grande multiplicidade emocional. Há forte influência de gêneros como Drum ‘n’ Bass, House, Breakbeat, Minimal e Techno, permeada por samples picotados que, de uma forma ou outra, têm um significado afetivo para o duo. Trechos que evocam o saudosismo de ir em festas no terraço de prédios londrinos, o arrepio de corais Búlgaros e Hindi, timbres pitorescos e datados da tecnologia MIDI dos anos 1990.

O disco inicia de maneira quebradiça com “Atlas”, uma forma desacelerada de Drum ’n’ Bass envolta por texturas suaves e reverberadas. Disso, vamos para “Apricots”, mais suingada e repleta de elementos étnicos que sustentam uma crescente sensação de êxtase que tem seu pico lá pelo meio da composição. “Lido” dispensa batidas e bumbos martelados para proporcionar uma sensação de suspensão a partir de pads aéreos. Já “Sundial” dobra a importância da percussão e acrescenta uma atmosfera quase futurista na mistura precisa entre vocais líricos e música eletrônica. Por fim, “Hawk”, colaboração com machìna, encerra o disco em um ápice energético e algo estroboscópico por conta de seus timbres agressivos.

Isles é um disco de extremo apego emocional e, talvez por isso, seja tão acessível ao público. Cada elemento contribui na composição de uma experiência completa e altamente imersiva. As 15 faixas aqui funcionam tanto como uma válvula de escape para tempos tão distópicos, quanto como um vórtice temporal que revisita e ressignifica as experiências de Matt McBriar e Andy Ferguson.

(Isles em uma faixa: “Sundial”)

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ARTISTA: Bicep

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.