Resenhas

Brian Eno e Karl Hyde – High Life

Segundo disco colaborativo em menos de quatro meses traz uma nova faceta ao projeto

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Ano: 2014
Selo: Warp
# Faixas: 6
Estilos: Eletrônica, High Life
Duração: 43:33
Nota: 3.5
Produção: Brian Eno, Fred Gibson

Brian Eno dispensa comentários. Sua presença na música data desde a década de 1980, passando por participações, produções e presenças em projetos como Roxy Music, Talking Heads, U2 e David Bowie entre outros. Logo, é um produtor gabaritado e que sabe o que está fazendo mas que está tentando se aproximar de atos contemporâneos, como MGMT e sua mais recente contribuição em voz no último disco de Damon Albarn.

Sua nova obra marca mais uma parceira em sua extensa carreira, novamente com Karl Hyde, conhecido por estar a frente do Underworld, famoso projeto de música eletrônica, sobretudo nos anos 1990 pelo single Born Slippy presente no filme Trainspotting. High Life, no entanto, o segundo trabalho conjunto em menos de quatros menos se diferencia de Somewhere World de diversas maneiras. Gravado em cinco dias, inverte a sensação de desencaixe que tínhamos na obra anterior, sobretudo devido a composição de ambos durante todo o processo, pois Somewhere era, na verdade, rascunhos de faixas que estavam perdidos na biblioteca de Eno e que desejavam encontrar a luz do dia eventualmente. A solução foi chamar Hyde, que faz o papel de vocalista aqui, mas que não havia funcionado tão bem com faixas interessantes pelo lado instrumental e pouco pelo trabalho vocálico quase improvisado.

A guitarra chama atenção em todos os momentos da curta obra: High Life era o estilo mais famoso na Africa Oriental antes da invenção do Afrobeat por Fela Kuti. Logo, espere um instrumental mais enérgico, rítmico e rápido mas que com influências da música eletrônica e percussão africana como Lilac que funciona muito bem. Hyde canta como um elemento presente da faixa e não um simples aderaço à canção em um momento moderno, divertido e crescente, muito mais interessante do que havíamos sentido anteriormente no dueto. DBF, então, é a grande música de toda a parceria, uma viagem no tempo psicodélica ao ritmo frenético africano em uma roupagem que abraça do experimentalismo e dos efeitos sonoros ao invés do costume pelo virtuosismo do estilo. As texturas e ritmos conduzem os ouvidos acima de qualquer outro elemento: não espere solos harmônicos mas sim experiências sonoras diferentes nesta música funkeada e estimulante.

O trabalho em si é muito mais orgânico e transparente, no sentido de organização e abertura de seus músicos a uma ideia que parece comum há ambos. A música Eletrônica ainda é a bola da vez aqui, mas a fluidez de Return, épica abertura de nove minutos, mostra que, se antes prestávamos mais atenção ao instrumental e aos seus bons elementos antes mesmo de nos divertir, agora podemos curtir um bele experiência sonora, coesa em todos os sentidos. Percebemos muito mais uma banda à vontade do que um simples projeto e finalmente, sincronismo entre Brian Eno e Hyde, sendo a guitarra pulsante de todas as faixas a cola que une todos os momentos deste segundo disco colaborativo. O aspecto sensual de Time to Waste It e seu Funk de outrora, mas desta vez com a participação da cantora Marianna Champion, fazem desta canção uma espécia de mistura entre Talking Heads e a África. Aliás, o transe do Afrobeat é sentido neste momento em uma faixa que abusa de uma instrumentação circular que coloca o ouvinte em uma espécie de meditação musical: elementos são acrescentados aos poucos mas o ritmo é sempre o mesmo nesta comunhão entre ouvidos, pés e música.

O maior experimentalismo se concentra na avessa Moulded Life, momento instrumental e viajado sendo a faixa mais subjetiva de toda a obra com seus barulhos, texturas, baixo grosso e claramente os músicos se divertindo como uma verdadeira jam session. Cells & Bells traz Eno de volta aos vocais em uma melancolia exarcebada e uma música propicia para terminar o disco: calma, contemplativa e extremamente bonita. High Life é um acerto em todos os sentidos: traz uma parceria mais livre, menos engessada e uma coesão sonora que demorou a surgir na primeira parceria. Mais do que isso, temos o pacote completo de um bom álbum: nada de pequenas experiencias sonoras em que o instrumentalismo tinha mais destaque que o trabalho de voz pouco encaixado de Hyde. Agora, finalmente podemos entender o que o dueto quer trazer: Música Eletrônica contemporânea com influências diversas, algo que Eno sempre fez ao longo de sua carreira, mas que finalmente consegue se transformar de forma concreta.

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Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.