Resenhas

Clap Your Hands Say Yeah – New Fragility

Alec Ounsworth amplia a sonoridade Indie consolidada no meio dos anos 2000, atualizando seu discurso para uma abordagem mais política e efusiva

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Ano: 2021
Selo: CYHSY
# Faixas: 10
Estilos: Indie Rock, Rock Alternativo, Folk
Duração: 41'
Produção: Alec Ounsworth e Will Johnson

Ao redor de Alec Ounsworth e seu projeto Clap Your Hands Say Yeah parece haver uma aura cool e despretensiosa que o acompanha há um bom tempo. Mesmo passando por uma série de mudanças de formação, restando apenas Alec como membro original, a banda concentra o ar despojado que o Indie Rock americano sempre tomou para si como uma espécie de regra não oficial. O primeiro e autointitulado registro de 2005 demonstra isso de forma categórica, com baladas simples, recheadas de vocais que misturam o espírito de Bob Dylan e a energia de Los Campesinos! Soma-se a isso as temáticas abordadas que, em geral, permeiam o mundo efusivo e disperso da juventude, com sentimentos à flor da pele e uma urgência de comunicar ao mundo a singularidade de problemas aparentemente superficiais, mas que tocam o compositor como um furacão desembestado. De qualquer maneira, Alec nunca foi um artista de sentimentos leves e, apesar de sempre manter uma aparência de despreocupação descolada, sua música sempre procurou extrapolar isso.

Talvez seja normal encaixar bandas Indies do começo dos anos 2000 nestas perspectivas efêmeras e joviais. Porém, o que acontece quando essas pessoas crescem e a vida vai além de pistas de danças e sentimentos internos? Esta é uma das questões do novo disco da banda, New Fragility. Um trabalho que alia a linguagem escapista do Indie à necessidade de encarar que nossos problemas têm também fundamentos que nos escapam. É assim que Alec entra aos poucos no campo político, percebendo sua saúde mental e física como reflexo direto de decisões governamentais, ainda mais após um ano tão singular quanto 2020. Não entenda mal: ainda há aquele jovem Indie que cantava com toda a sua força, angústia e sinceridade, a partir de acordes simples. Entretanto, esses mesmos sentimentos agora são direcionados para outros objetos e circunstâncias, sob uma roupagem sonora que respeita a tradição Indie, mas, ao mesmo tempo, procura novos meios de deixar claro este amadurecimento.

A rispidez e agilidade do Indie se aliam a arranjos mais complexos, repletos de camadas que procuram dar forma à complexidade dos eventos. Parece que, nos discos passados, uma simples estrutura de banda de Rock (bateria-baixo-guitarra-voz) dava conta do recado. Agora, é mais elementos são necessários para dar continuidade ao discurso fervoroso de Alec. Ao invés de mantê-las cruas e distorcidas, há um espaço maior ocupado pelos efeitos de guitarra, como reverbs e delays infinitos. Pianos outrora coadjuvantes também se espalham pela produção, seja de forma pontual ou formando uma base ampla para outros instrumentos. Uma das maiores inovações fica por conta dos arranjos de cordas que funcionam como um catalisador da força do CYHSY, transbordando emoções e potencializando as mensagens de Alec. Mesmo somando todas estas sonoridades, o disco ainda soa nostálgico e parte disso está justamente no trabalho de unir estas novidades com o gênero consolidado de 15 anos atrás.

O tom político já se afirma na primeira faixa, “Hesitation Nation”, uma canção sobre o poder da dúvida na organização governamental, declamado sob uma sonoridade sarcasticamente otimista. “Dee, Forgiven”, por sua vez, é mais fúnebre e arrastada, com uma melodia que conserva um tom de hino nacional americano melodramático e revisitado por sintetizadores: uma metáfora bastante eficaz. A potência dos arranjos de cordas pode ser conferida em “Innocent Weight”, que dá o papel principal aos violinos muito por conta dos diferentes humores pelos quais transita em um espaço curto de tempo. “CYHSY, 2005” dá a dica no seu título do momento reservado para uma experiência puramente nostálgica e que retoma o começo da carreira do grupo. Por fim, “If I Were More Like Jesus” encerra o repertório trazendo uma sonoridade Lo-Fi, embora impulsionada pelo peso do timbre de voz de Alec: frágil e sincero.

New Fragility é um trabalho que explora a política e a forma como muitas vezes sequer participamos dela – e, justamente por isso, somos diretamente afetados. O disco marca o amadurecimento em uma banda que tinha como marca principal uma fragilidade despretensiosa da juventude. Como o próprio título sugere, esta fragilidade não abandonou o projeto de Alec, mas se mostra em uma nova configuração, respirando ares novos e mais complexos. Uma fragilidade nova para um tempo conturbado.

(New Fragility em uma faixa: “Dee, Forgiven”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.