Resenhas

DARKSIDE – Spiral

Oito anos após a impactante estreia colaborativa, duo retoma experimentações entre gêneros e viaja por Ambient, Jazz, Pop e psicodelia

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Ano: 2021
Selo: Matador Records
# Faixas: 9
Estilos: Experimental, Eletrônico, Psicodelia
Duração: 51'
Produção: Darkside

Quando pensamos no duo de música eletrônica experimental DARKSIDE, é importante sempre ter em mente um conceito emprestado da psicologia Gestáltica: a coisa total é maior do que a soma de todas as partes. Neste projeto, as partes em questão são o produtor chileno-americano Nicolas Jaar e o multi-instrumentista americano Dave Harrington. Cada um traz uma história rica de experimentações através de seus diversos projetos – seja no diálogo audiovisual de Jaar em Telas (2021), ou com o melancólico e entrecortado grupo musical de Harrington e seus registros Become Alive (2016) e Pure Imagination, No Country (2019). A junção dessas duas mentes ávidas por linguagens experimentais certamente trouxe uma expectativa alta quando o disco de estreia do duo foi anunciado. Porém, estudar as trajetórias de ambos os músicos não trouxe nenhuma previsão certeira acerca da sonoridade a ser explorada. O resultado foi um dos discos mais ambiciosos de 2013: Physic.

É curioso como Physic já tem em si uma carga muito nostálgica. Ainda que não façam nem 10 anos de seu lançamento, o registro certamente trouxe influências para além do circuito de música eletrônica. Talvez por unir um veterano das pistas de dança com um instrumentista habilidoso o disco tenha funcionado tão bem em ambos os cenários. É justamente aí que entra o conceito Gestáltico mencionado anteriormente. DARKSIDE é um projeto que junta as melhores habilidades de ambos os produtores e cria algo autêntico e único, maior do que a simples junção de partes isoladas. Tão único que, depois de anunciado o hiato indefinido em 2014, Physic ganhou o status de uma espécie de “momento suspenso no tempo” que não se repetiria tão cedo. Entretanto, uma inesperada reunião em tempos pandêmicos reacendeu a vontade de ambos colaborarem junto novamente, dando prosseguimento a esta história que começou há oito anos. Mas esta volta, ao contrário do que muitos desejavam, não traria aquele momento único de 2013 de volta em sua íntegra. Não. A história ao redor de Spiral é outra.

Em entrevista para Stereogum, o duo relata que o hiato não surgiu de uma exaustão pelas massivas turnês de Physic, mas de um sentimento natural de que aquilo que tinham feito era um capítulo que já havia terminado. Com a mesma naturalidade, a vontade de se reunir e colaborar novamente foi o que norteou as sessões que dariam origem às faixas deste novo registro. Assim, como um capítulo se fechou outrora, inicia-se uma nova história para DARKSIDE que ainda mantém um espírito experimental forte, mas percorre novas referências e caminhos narrativos. Mais uma vez, é inútil tentar prever para onde o duo percorre e parte do apelo do disco é se lançar a esta imprevisibilidade. Há momentos propícios para a pista de dança, mas também existem espaços amplos que percorrem Ambient Music. Há flertes com a música Folk, o Jazz e até mesmo um Pop mais convencional. Pode não ser a mesma história que ouvimos no primeiro disco, mas a complexidade e imersão proposta nas nove faixas são uma marca registrada de DARKSIDE que volta à tona neste novo trabalho.

Spiral começa sorrateiro, com a misteriosa “Narrow Road”, que nos submerge aos poucos pelo universo plural de DARKSIDE. “The Question Is To See It All” mostra o flerte com o Folk, porém de forma que não dispensa os truques de edição de áudio e a manipulação digital de timbres característicos do gênero. “I’m the Echo” traz um toque típico de psicodelia-Pink Floyd, pontual o suficiente para não transbordar para o Rock, mas impactante o bastante para não categorizarmos genericamente este som como “eletrônico”. “Liberty Bell” coloca todo suingue dançante em cena, em uma corda bamba entre o Indie e o Pop. Por fim, “Only Young” se aproxima da mansuetude que iniciou o disco, mas vai crescendo à medida que coloca um ponto final do disco – quase como uma odisseia progressiva dos anos 1970.

Oito anos depois de uma estreia impactante, Nicolas Jaar e Dave Harrington voltam a continuar suas experimentações por entre gêneros. Apesar de seu retorno ser algo que reforça uma nostalgia do começo da década passada, o intuito aqui não é um exercício saudosista. Spiral é o reencontro entre dois ícones da música experimental recente, mas não é um segundo capítulo – e, sim, uma expiração de tudo o que foi coletado desde então em suas trajetórias. Uma daquela reunião entre dois amigos que, mesmo separados por tanto tempo, conversam como se nunca tivessem se afastado.

(Spiral em uma faixa: “I’m The Echo”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.