Resenhas

Freddie Gibbs & Madlib – Bandana

Freddie Gibbs e Madlib consolidam uma parceria de sucesso ao mesmo tempo em que evoluem suas sonoridades e temas em novo disco

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Ano: 2019
Selo: Keep Cool/RCA Records
# Faixas: 15
Estilos: Gangsta Rap, Jazz Rap
Duração: 46'
Nota: 4.5
Produção: Madlib

Há cinco anos, a Freddie Gibbs e Madlib colocavam seu primeiro trabalho em conjunto no mundo. O registro em questão, Piñata (2014), imediatamente recebeu a alcunha de “clássico instantâneo”. Na comunidade Hip Hop, o termo é um velho conhecido por ser usado irresponsavelmente para descrever discos que, na maioria das vezes, não são, de fato, clássicos instantâneos. No entanto, o LP que marca a estreia desse duo faz jus ao título. Piñata foi recebido com entusiasmo pelos fãs e pela crítica, principalmente por trazer uma nova perspectiva lírica e musical do já tão cantado crime dos subúrbios norte-americanos.

O clipe de “Crime Pays”, lançado pela dupla em maio deste ano, começa com uma sequência de imagens violentas seguidas de Gibbs acordando de um pesadelo com os dizeres “5 years later” na tela. Os takes, no caso, foram extraídos de um outro clipe: “Thuggin”, um dos principais singles de Piñata. Tudo isso para dizer que, de lá para cá, a trajetória foi turbulenta, especialmente para Gibbs. Ainda em 2014, ele sofreu uma tentativa de assassinato e, em 2016, foi acusado de estupro e mantido preso por algumas semanas. É nesse momento que a composição de Bandana começa.

“Você tem que colocar o melhor de si ou as batidas vão brilhar mais que você”, disse Gibbs ao Genius relembrando seu tempo na prisão em que recebia as batidas de Madlib e escrevia em cima delas. De fato, neste disco, Madlib – autor do clássico não-instantâneo Madvillainy (2004) e conhecido por suas batidas sampleadas de Soul – surpreendeu a todos com suas escolhas e investidas para os beats. Antes de mais nada, é preciso ressaltar que, na semana passada, ele revelou via Twitter que fez tudo em um iPad. E ainda deixou um recado: “Parem de inventar desculpas (…). A tecnologia é o que você faz dela”.

Mas, não pense que a modernização do trabalho de Madlib vem exclusivamente de uma mudança de plataforma. Pelo contrário, esteticamente, as novidades se sobrepõem. Uma delas é a queda para o Trap em músicas como “Half Manne Half Cocaine”. Em sua primeira metade, ela ainda ganha synths finos que criam a melodia por sobre a batida. Os graves de “Situation”, por exemplo, aludem muito mais para o que se espera das faixas que figuram no topo das paradas de Hip Hop dos Estados Unidos do que para um beat de Madlib.

Seria um exagero dizer que Gibbs, realmente, brilha mais do que as batidas deste novo LP. No entanto, é totalmente possível afirmar que ele as surfa com maestria. O resultado repleto de fluidez desta combinação é reflexo da experiência que angariou entre o lançamento de Piñata e Bandana. Nesse meio tempo, ele soltou algumas mixtapes, EPs e até álbuns com outros parceiros (Teddy Walton, Kenny Beats e The Alchemist – figurões do Trap e do R&B contemporâneos – estavam na lista de colaboradores).

Na prática, isso quer dizer que Bandana, evidentemente, ainda traz contos do crime e do tráfico, mas o ponto de vista do qual essas histórias são narradas chega amadurecido: as críticas vêm mais refinadas e refletem o mundo à volta do rapper. Em “Flat Tummy Tea”, primeiro single do álbum, em meio a provocações para seus contemporâneos, ele rima a respeito do uso excessivo de codeína no Hip Hop. Já em “Freestyle Shit”, Gibbs reconta a sua trajetória para o sucesso sustentada com a ajuda do tráfico. E isso progride conforme o decorrer do disco. “Fake Names” revela o cantor atormentado pelos rostos mortos que viu, “Soul Right” escancara a sua dificuldade sua estrutura de vida e por aí vai.

Gibbs ainda se favorece muito dos beat-switches de Madlib ao longo do álbum. Quando um novo som se apresenta em qualquer música, o rapper prontamente chega com uma nova temática ou flow. É o caso de “Fake Names” e “Cataracts”. Para além disso, em algumas dessas oportunidades, ele ainda aproveita para fugir da abordagem descontraída sobre a qual construiu sua imagem. Nelas, velocidade e entusiasmo colorem seus versos.

As participações especiais de Bandana também vêm a calhar. Em “Palmolive”, Killer Mike assina o melhor o refrão do disco. Na mesma música, Pusha T ainda aterrissa suavemente sobre a batida de Madlib. O combo é tão interessante que até me fez desejar ouvir uma colaboração mais extensa entre os dois. A voz de Anderson .Paak também se destaca em um belo momento cantado em “Giannis”. E, por fim, “Education”, que tem um pé no old school conta com versos afiados sobre racismo e política de autoria de Yasiin Bey (ex-Mos Def) e Black Thought.

Bandana é, claramente, um trabalho feito a quatro mãos. No disco, o produtor e o rapper dividem igualmente o tempo sob os holofotes – o que tem se tornado cada vez mais comum no Hip Hop. Mas, mais do que isso, o LP é a consolidação de um projeto em dupla que funciona verdadeiramente. Há troca e um parece conseguir tirar o melhor do outro a cada faixa. Gibbs declarou recentemente que estava atrás de ganhar o respeito que, até agora, sentia que não tinha: ele quer uma cadeira garantida entre os maiores rappers de sua geração. No que depender de Bandana, tudo indica que Gibbs terá seu desejo atendido.

(Bandana em uma faixa: “Palmolive”)

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