Resenhas

Gaspard Augé – Escapades

Disco solo de integrante do Justice traz um mar de referências para além da sonoridade agressiva e distorcida do duo

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Ano: 2021
Selo: Genesis
# Faixas: 12
Estilos: Electro Pop, Synthpop, Progressivo
Duração: 42'
Produção: Gaspard Augé

Construir um projeto solo é uma faca de dois gumes. Ao se afastar de uma banda para produzir um registro inteiramente voltado para sua personalidade, existe a oportunidade de criar possibilidades artísticas que fujam daquele escopo original. É o momento em que nós, ouvintes, temos a chance de nos aprofundar pelas referências de determinado integrante, de forma mais pura e sob menor influência da construção coletiva. Entretanto, esse afastamento só existe até certo ponto, pois a banda/projeto original sempre existe como moeda de comparação, de uma forma ou outra. É aí que está o outro lado da faca: o eterno paralelo entre aquilo que se produz individualmente e coletivamente.

Por mais inédito que possa ser este material, o ponto de partida da crítica e do público nunca é um zero absoluto – parte-se de um lugar onde muito já foi construído e analisado. É como uma sombra seguindo este artista por onde ele quer que vá. Apesar de ser interessante comparar dois momentos distintos de uma mesma carreira, por vezes isso se torna uma cobrança – ou até mesmo uma obrigação saudosista. No caso do francês Gaspard Augé, a sombra que o acompanha é gigantesca.

Gaspard é metade do duo francês Justice, responsável por tantos hits como D.A.N.C.E e DVNO – ambos do bíblia do Electro Indie, “Cross” (ou “†”), de 2007. Desde a metade dos anos 2000, a dupla de produtores mostra ao mundo uma sonoridade extremamente autêntica, misturando a agressividade dos sintetizadores distorcidos com House, Techno e Disco. Assim, desde então, o legado que deixaram (e ainda produzem) tem sido uma referência indiscutível para muitos artistas e certamente exerce um reflexo na forma como o Pop foi construído na década de 2010. A opção de produzir um disco solo vem do desejo particular de Gaspard de sair desta dinâmica colaborativa e compreender melhor como ele próprio produziria um disco sem precisar de um aval ou consulta de seu parceiro de dupla. Mesmo quando se afastou do Justice em outro momento, foi para colaborar com o produtor Mr. Oizo no disco Rubber (2010). Com isso em mente, seu primeiro trabalho totalmente solo nasceu.

Escapades traduz um pensamento muito próprio de como Gaspard enxerga o processo criativo e a arte de forma geral. Em entrevista para a NME, ele revela grande antipatia pela forma como artistas compartilham demais seus projetos, colocando a autenticidade de suas escolhas abaixo da opinião pública. Apesar de ser inevitável a comparação com Justice, este é um momento em que Gaspard aproveita ao máximo para explorar suas referências além da música eletrônica. Nesta brecha, entram influências gritantes da música progressiva dos anos 1970 e trilhas sonoras de filmes de ficção científica, o que afasta Escapades de se tornar um disco apenas de hits soltos. O disco funciona, tal qual uma trilha sonora, com um propósito narrativo que conta uma história de acordo com os humores e ambientações de cada uma das 12 faixas. Porém, a narrativa não é concreta e definitiva. O fato de ser um trabalho instrumental contribui para que o ouvinte componha a narrativa junto de Gaspard, quase como um projeto solo construído em colaboração com o ouvinte. Eis aí um dos trunfos do disco: a possibilidade de render diferentes entendimentos e histórias a partir de um mesmo referencial sonoro – referencial este que repassa a carreira de Gaspard, seja na música eletrônica com o Justice, ou anterior a isto.

Um bom disco de trilha sonora não estaria completo sem uma introdução apropriada. Para isso, o combo “Welcome” e “Force majeure” funcionam tanto como uma entrada gradual ao universo de Gaspard, como uma explosão de sintetizadores para este universo – fato que colocou esta canção como trilha de abertura para a transmissão do campeonato europeu na BBC. “Pentacle” se afasta do bate estaca eletrônico e se arrasta por uma batida lenta e timbres dos anos 1980 que pintam um cenário nostálgico, mas também futurista. A influência da ficção científica fica evidente em “Lacrimosa”, uma espécie de odisseia espacial dos anos 1970, alternando entre timbres digitais e instrumentos analógicos que dão aquele aspecto metamórfico das composições progressivas daquela década. “Casablanca” poderia facilmente ser a abertura das Olímpiadas de um universo cyberpunk, misturando ares épicos com distorções distópicas – um ótimo momento para os saudosistas de Justice. Por fim, “Rêverie” entra em concordância com o clima narrativo do disco, funcionando como epílogo da obra – que não chega propriamente a encerrá-lo, mas a propor reticências para o universo criado.

Gaspard Augé cria um espaço autenticamente próprio dentro da música. Em Escapades, é possível escutar um tantinho de Justice aqui e ali, mas certamente este não é o ponto central do trabalho. Além de produtor afiado em suas referências e DJ pesquisador ávido, o francês revela uma particularidade que talvez não ficasse tão clara em outros discos: seu talento narrativo. Pois bem, esta é a história de Gaspard.

(Escapades em uma faixa: “Force majeure”)

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ARTISTA: Gaspard Augé

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.