Resenhas

Genesis Owusu – Smiling With No Teeth

Cria de “novos clássicos”, disco de estreia do artista ganês-australiano impressiona com musicalidade virtuosa e conceito bem amarrado

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Ano: 2021
Selo: Ourness/House Anxiety
# Faixas: 15
Estilos: R&B Alternativo, Neo Soul, Rock Alternativo
Duração: 53'
Produção: Andrew Klippel, Dave Hammer, Harvey Sutherland, Joe LaPorta, Matt Corby

Kofi Owusu-Ansah não havia nem completado 17 anos de idade quando To Pimp A Butterfly (2015), de Kendrick Lamar, chegou ao mundo. Antes de se tornar Genesis Owusu, o jovem ganês, que vive na Austrália desde os dois anos, colocou o clássico do rapper de Compton na cabeceira. Agora, mais de meia década depois, Owusu soltou seu disco de estreia, Smiling With No Teeth, e o impacto, lá atrás, de TPAB – seu “ disco favorito de todos os tempos”, como ele disse em entrevista ao Guardian – é perceptível. Mas a viagem vai muito além de qualquer aspecto derivativo.

Após bons singles como “Wit’ da Team” e o EP Cardrive (2017), o primeiro passo oficial de Owusu é ambicioso, ainda mais quando pensamos que se trata de uma estreia de um artista de 22 anos. As referências a Kendrick e TPAB têm mais a ver com – perdão pela palavra gasta – conceito do que com exatamente música. É como se o disco fizesse parte de uma linhagem que também passa por trabalhos como Awaken, My Love! (2016), de Childish Gambino, e A Seat At The Table (2016), de Solange, ou Lemonade (2016), de Beyoncé, e a ideia geral de Frank Ocean. (Um tipo de proposta/persona que muito provavelmente tem seu grande marco recente em My Beautiful Dark Twisted Fantasy (2010), de Kanye West. Mas isso é papo para outro dia). São álbuns que ampliam, esticam e reinventam as possibilidades do R&B moderno, do Neo Soul e do Rap, colocando temperos improváveis e saborosos no caldeirão, e prezando sempre, entretanto, por um conceito amarrado e sólido. São livres e multifacetados, mas peculiares e, ao mesmo tempo, coerentes dentro de seu próprio universo.

Smiling With No Teth, portanto, está longe de ser apenas um amontoado de (ótimas) canções. É um manifesto de um talentoso jovem negro que cresceu em um ambiente predominantemente branco e que enfrentou e enfrenta dois principais inimigos: o racismo e a depressão. Owusu constrói a ponte entre os dois temas a partir da metáfora do “Black Dog”, xingamento racista usado contra ele durante a infância. “A tale of black dogs with golden leashes / Broken stories told facetious / Who’s the pet and who’s the teacher?”, canta ele no início de “The Other Black Dog”, um Synth Punk com toques de Talking Heads. Ela vem após a faixa de abertura “On The Move!”, claramente inspirada em Death Grips – em um nível que soa quase como pastiche. O repertório já mostra de cara que a jornada não será das mais óbvias.

Da mesma forma que os álbuns citados acima, SWNT traz uma influência comum entre artistas dessa onda R&B-Neo-Soul-Rap-Conceitual (e como não poderia deixar de ser): Prince. Em entrevista a Anthony Fantanto, Owusu contou que a paixão avassaladora pelo Purple One é recente. Ou seja, ele ouviu primeiro os influenciados e depois a influência. O resultado da equação é excelente. “Centerfold” usa reverbs hipnóticos para criar uma ambiência psicodélica e ritmada, enquanto falsetes melosos guiam a canção, aos moldes de Prince na – subestimada – fase Art Official Age (2014). Já “Waitin’ On Ya” se centra mais em um Soul funkeado, cercando um refrão dos mais chicletes e abrindo espaço para os versos de Owusu em voz de barítono. Com ironia e presença de espírito, ele canta sobre a angústia que permanece pronta para o bote. Prince também ressoa na faixa-título, um Funk minimalista baseado em baixos gordos, synths aéreos e voz em falsete – a letra, mais uma vez, fala de tristeza e desamparo, e faz isso a partir de uma ideia muito apropriada: a do combate à romantização da dor. (“Everybody wants the summer without holding the rain / Everybody wants the feeling without touching the pain / Everybody wants the sweetness without tasting the bland / Everybody wants the help but they ain’t lending a hand”).

Parceiro na produção do disco e outro nome quente da atual música alternativa australiana, Kirin J. Callinan faz uma dobradinha explosiva com Owusu em “Drown”, que evoca o Bowie dos anos 1980. A guitarra de Callinan também brilha demais em “Don’t Need You”, a faixa mais memorável do disco, que alia melancolia e ternura em um groove capaz de deixar com inveja qualquer banda de Indie Pop. Ainda há espaço para a doce “No Looking Back” e a investida Folk “Song About Fishing”, crônica menos sobre pescar e mais sobre esperança, seguir em frente. Sorrir, mesmo sem dentes.

Genesis Owusu capta referências fundamentais de seu tempo – e as referências das referências –, e, com verniz moderno, as empurra para frente, musical e conceitualmente. Sem que, ainda assim, o conceito tenha primazia sobre a música. Prova disso são as empreitadas que vão do Pós-Punk ao Soul sem medo e com uma virtuosidade que impressiona. Até mesmo certos excessos soam apenas como sinais de um artista faminto, e isso nunca vai ser demérito. Quer coisa mais a cara dos nossos tempos do que o “tudo ao mesmo tempo de uma só vez”? Dessa esponja, nasce Smiling With No Teeth, um disco que já é cria de “novos clássicos” e uma estreia que aponta para o futuro – ou simplesmente já o anuncia.

(Smiling With No Teeth em uma faixa: “Don’t Need You”)

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ARTISTA: Genesis Owusu