Resenhas

Grace Ives – 2nd

Misturando referências contrastantes, a compositora e produtora norte-americana chega com um disco confessional e cativante

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Ano: 2019
Selo: Sony Music
# Faixas: 12
Estilos: Synthpop, Lo-fi, Bedroom Pop
Duração: 22'
Nota: 3.5
Produção: Grace Ives

Quem entra no Bandcamp de Grace Ives ou então decide, à sua maneira, navegar pelos seus registros sonoros, tem a impressão de que está entrando no quarto dela tamanha a leveza e tranquilidade da artista em expressar seus pensamentos e sua intimidade. Além disso, a sensação se agrava quando percebemos que ela trata sua produção musical como um laboratório em que o experimentalismo não tem limites. Nesse mix estão diversos lançamentos disruptivos: o EP Future Babes (2018) reinventa canções infantis norte-americanas com sintetizadores baratos e uma estética Lo-Fi, um cover ácido e improvável de “Come See About Me” de The Supremes, até um compilado de 17 toques de celular de sua autoria existe (RINGTONES!! Vol.1 [2017])

Depois dessa viagem pelas ideias mirabolantes da compositora, já é de se imaginar que seu primeiro LP seria qualquer coisa menos simples ou homogêneo. 2nd é desafiador e encanta por sua habilidade em concatenar referências contrastantes. Se em alguns momentos as músicas se jogam na pista (com samples de baixa fidelidade, mas com ótimas batidas), em outros uma aura relaxante toma conta do ambiente sem economizar em pads reverberados e arranjos Indie. Há também um apego por sonoridades robóticas. No entanto, elas passam longe do que Charli XCX tem feito. A influência para qual o disco aponta é o começo da tecnologia celular do final dos anos 1980. Isso tudo envolto pelo aspecto confessional de suas letras.

A acelerada e psicodélica “Masion” abre o álbum com uma batida frenética que, ao combinar-se com a melodia reverberada criada por Ives, remonta vagamente a Tetê Espíndola. Já “Idk What I Should Do” tem sua malemolência: trata-se de algo como um Dub futurista Lo-Fi – o que só comprova a capacidade da artista de juntar diferentes gêneros e subgêneros musicais em uma só peça inteligente e redonda. “Icing On The Cake”, por sua vez, lembra o começo do Chairlift, principalmente no momento em que contrapõe um ritmo super dançante com arranjos simples. Por fim, “Ocean” distorce o cenário e constrói uma espécie de “rave intimista” para fritar no quarto.

A assustadora “Something In The Water” abre espaço para uma outra faceta da cantora. Abusando de ecos e ruídos, ela deixa o disco mais soturno e deixa para “Mirror” fechar o LP com uma sensível mistura de Ambient e Pop. Com pouco mais de 20 minutos de duração, 2nd é uma viagem completa. Grace conduz o registro com a rara qualidade de não permitir com que se perca o interesse durante a audição. A boa dica para ouvi-lo, aliás, é estar aberto para surpresas. E, provavelmente, Ives ainda nos reserva uma carreira próspera para seu futuro. Assim, olho nela!

(2nd em uma faixa: “Mansion”)

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ARTISTA: Grace Ives
MARCADORES: Bedroom Pop, Lo-Fi, Synthpop

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.