Resenhas

IDLES – CRAWLER

Quarto disco dos atuais heróis do Post-Punk usa o peso e o volume necessários para falar da saúde mental em tempos pandêmicos

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Ano: 2021
Selo: Partisan Records
# Faixas: 14
Estilos: Post-Punk
Duração: 46'
Produção: Kenny Beats e Mark Bowen

Dois acontecimentos recentes precisam ser levados em conta ao escutarmos CRAWLER, quarto álbum da banda britânica IDLES. O primeiro é global, a pandemia do covid-19 que afetou e segue afetando todo o mundo, e inspirou o quinteto a compor sobre o período de recuperação após o indivíduo passar por um trauma – tema, hoje mais do que nunca, tido como “universal”. O segundo é um episódio, ou um conjunto de pequenos acontecimentos, que colocaram o grupo nos, digamos, “tabloides” da música Indie ao redor do mundo, mas principalmente em seu país de origem.

Há cerca de um ano, já em tempos pandêmicos, um coro puxado por Jason Williamson, vocalista da conterrânea Sleaford Mods, acusou a banda de se apropriar de um discurso e uma estética própria da classe operária inglesa – esse Punk (ou, mais especificamente, Post-Punk) seco, cheio de fúria, angústia e uma certa dose de ironia –, sendo que os integrantes que compõem IDLES vêm de contextos sociais diferentes. Como costuma acontecer no ambiente digital, foi um incêndio que passou e foi esquecido pela maioria, mas com algumas marcas nas pessoas incendiadas – ou seja, a própria banda.

Isso parecer estar presenta na escolha, ainda que de forma inconsciente, de CRAWLER tratar um tema tido então como universal, levando suas letras e suas emoções inflamadas a mensagens que podem ser reconhecidas por pessoas de diferentes lugares do planeta, não apenas do interior da Inglaterra. Dessa forma, a tal polêmica pode ficar ainda mais do passado. E, como o disco todo mostra, a estética de sempre funcionou muito bem para amparar esses temas impulsionados pela pandemia.

Com baixo muito presente e bateria grave e seca, o estilo dá forma ao que está sendo cantado em um alto nível de eficácia. É o verso “I’m alright” sendo repetido e gritado diversas vezes em “Meds”, ou a intenção de incorporar o ruído em “Car Crash” para causar algum desconforto no ouvinte: vários são os detalhes que fazem o Post-Punk ser o canal certo para letras tão intensas.

O álbum se apresenta como uma obra que deve ser ouvida na ordem, com uma faixa introdutória (“MTT 420 RR”) que abre o ouvinte aos poucos para a pancada sonora que vem pela frente. Ela nos atenta também a um trabalho bastante minucioso de produção, dividida entre o guitarrista Mark Bowen e o prolífico produtor Kenny Beats, que já trabalhou com nomes tão variados como Vince Staples, FKA twigs e Ed Sheeran. Por mais que todo o disco esteja dentro de um só estilo, alguns pequenos detalhes no trato sonoro ajudam a situar a obra em um cenário contemporâneo que se comunica com outras musicalidades dentro do guarda-chuva do Indie de hoje.

Ao chegar ao final de CRAWLER, com uma faixa devidamente batizada como “The End”, o ouvinte sentiu o peso e o volume necessários para falar da saúde mental em tempos pandêmicos. Com isso, IDLES argumenta a favor de sua sonoridade e dá um passo na direção oposta da argumentação contra sua estética (e atitude) Punk. Se o covid-19 é um grande nivelador da condição humana – para o vírus, não há quaisquer distinções entre as pessoas –, talvez ele tenha o mesmo efeito sobre a música e seus nichos.

(CRAWLER em uma faixa: “Meds”)

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ARTISTA: IDLES

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.