Resenhas

In Venus – Sintoma

Novo disco da banda paulistana retira excessos para revelar o caos e a desordem dos contextos político-sociais atuais

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Ano: 2021
Selo: Efusiva
# Faixas: 10
Estilos: Punk, Garage, Post-Punk
Duração: 29'
Produção: Mari Crestani

Naturalmente, o contexto social se reflete na produção artística de seu tempo. O resultado da soma entre pandemia, contextos políticos desafiadores e perigosos, angústias da era digital (e tantos outros agravantes) ressoa na arte atual de diversas formas e em diferentes graus. É uma época turbulenta demais e a pluralidade de sons, a mescla ambiciosa e a experimentação podem ser ótimas formas de dar conta dessa realidade caótica. Dentro deste contexto, a banda paulistana In Venus encontrou nessa estratégia de experimentação, a possibilidade de poder expressar angústias extremas a partir de uma sonoridade ríspida e repleta de referências Post-Punk.

Desde 2017, com seu disco de estreia, Ruína, fica claro que a matéria-prima da banda é o excesso – como um reflexo natural de um tempo que nos excede por completo. Neste primeiro momento, a banda encontra nos reverbs infinitos do Shoegaze a possibilidade de abrigar seus gritos e suas lutas. Algo com um quê de Savages, porém desconsiderando o limite dos amplificadores e pedais de distorção. Esta predileção pelos ecos ainda se manteve constante do excelente single Refluxo (2018), ambientando o ouvinte ainda mais fundo naquele universo de imersão e desespero. O In Venus carrega um aspecto hipnótico, mas ao mesmo tempo urgente em sua subversão. E agora? Como uma banda que tem como característica o excesso consegue dar conta de um contexto completamente diferente de cinco anos atrás? Como o excesso é trabalhado, se o mundo parece falar mais alto do que a gente consegue gritar? É isso que a banda procura fazer em seu novo disco Sintoma.

Em um primeiro contato, percebe-se uma mudança de caminho. O aspecto etéreo e úmido daqueles reverbs dá espaço a uma crueza de timbres. Os ecos, ainda que presentes em alguns momentos, cedem espaço para elementos secos. A atmosfera Shoegaze começa a ser encaminhada para referências mais antigas, como se fosse uma migração do Post-Punk para o Punk/Garage. Além disso, a banda experimenta mais com a sobreposição de diferentes linguagens – todas ao mesmo tempo. Durante as faixas, é difícil saber para onde devemos voltar nossa atenção – as guitarras estridentes, baterias distorcidas, sons de saxofone, vocais agressivos misturados entoando discursos políticos. Tudo isso é a nova explosão de In Venus e, apesar de se jogar no caos, é justamente essa ausência de um foco preciso que permite ao grupo dar vazão suficiente à maluquice que se estabelece no mundo real. Ao invés de criar uma caverna cheia de ressonâncias, a banda nos convida para fora dela, para encarar de frente a luz do sol.

A introdução a essa realidade crua vem com “Hen To Pan”, que já nos sacode em uma bateria frenética permeada por frases de guitarra aparentemente desconexas – tudo isso sustentando os versos perfurantes de Cint Murphy. Já “Quatro Segundos”, que traz dados alarmantes sobre a fome, parece beber do Punk brasileiro dos anos 1980. “Bordas” tem elementos percussivos mais gritantes, colocando mais uma variável para pintar a desordem da realidade que nos espreme. “Silêncio” alterna entre momentos um pouco mais suaves e picos de explosão e intensidade. Ao invés de terminar passando a mão em nossa cabeça, In Venus guarda a faixa mais densa para o final (“Ancestrais”), com um baixo e percussão arrastados criando a trilha para um discurso forte a respeito de luta e ancestralidade.

É curioso como Sintoma traz uma dualidade aparentemente antagônica. Para refletir tempos desordenados e caóticos, abre-se mão dos efeitos a fim de se revelar a crueza, sem disfarces, de cada elemento. É uma forma de conceber a realidade que une agressividade e certa exatidão – mas que, ainda assim, manifesta a ideia de que é preciso sentir o mundo intensamente, em sua totalidade, para que se perceba toda a urgência.

(Sintoma em uma faixa: “Ancestrais”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.