Resenhas

Jens Lekman – Life Will See You Now

Sueco faz mais um grande álbum sobre situações românticas do cotidiano

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Ano: 2017
Selo: Secretely Canadian
# Faixas: 10
Estilos: Pop Alternativo, Rock Alternativo, Singer/Songwriter
Duração: 41:07
Nota: 4.0
Produção: Ewan Pearson

Jens Lekman é o tipo de sujeito que escreve e canta versos como: “sonhei que seu coração tinha um GPS” ou “eu queria acabar com todas as suas dores, pelo menos aquelas que precisam de algo além de ibuprofeno”. O vocabulário inglês tem um termo perfeito pra gente assim: “quirky”. Não é o nosso “esquisito” ou “excêntrico”, uma vez que estes dois não associam, necessariamente, uma aura positiva a quem faz jus. Jens é estranho, excêntrico, mas seu trabalho é muito legal, não só pelas letras, pequenas polaroides do cotidiano urbano deste nosso tempo, mas pelo talento como melodista. É sempre muito difícil encontrar canções fracas em seus álbuns e este novíssimo Life Will See You Now não foge a esta regra. São dez faixas em que o sueco desfila sua verve de contador de histórias, testemunha de pequenas explosões românticas do dia a dia e protagonista de situações coadjuvantes, tudo embalado em um portfólio invejável de canções Pop à prova do tempo.

Tudo por aqui tem a aura de alguém desfavorecido pelos holofotes da fama ou da atenção. Jens tem a manha de ser sempre o personagem enjeitado da história, o irônico que ninguém entende, o pessimista que parece bobo, o sábio que o sexo oposto não leva a sério. Essas situações, gente, são mais plausíveis do que parecem e Jens é capaz de encapsular o quociente emocional decorrente delas em espécimes reluzentes de Pop dourado. Aqui ele apresenta dois diferenciais interessantes: recebe as participações de Lou Lou Lamotte e Tracey Thorn em três faixas e diversifica o espectro de arranjos, abrangendo, além do Pop anglo-americano das últimas quatro décadas, um pouco de Disco, um tanto de Eletrônica, uma pitadinha de latinidade canastrona intencional. Tudo soa como seu e funciona que é uma belezoca.

Os vocais seguem afiados como sempre, lembrando um Morrissey menos dramático, muito mais irônico. Canções muito acima da média se sucedem inexoravelmente à medida que o álbum avança. Jens parece à vontade em um disco só seu, após dois projetos em que cedeu seus talentos para musicar letras de fãs (Postcards) e fazer letras sobre histórias enviadas (Ghostwriter). Hotwire The Ferris Wheel, que conta com os vocais maviosos de Tracey, tem pequenos acessórios tecno-cafonas intencionais, mas ostenta uma melodia invejável, além de arranjos luxuriantes de teclados e vocais de apoio, que perpassam toda a melodia, parecendo algo que você poderia ouvir numa churrascaria rodízio sensacional, no melhor sentido que a frase possa comportar. What’s That Perfume That You Wear? tem parentesco com canções dramáticas de amor latino, levando adiante um andamento equivalente em autenticidade ao que Pet Shop Boys apresentaram em sua clássica Domino Dancing, ainda no século 20.

Apesar das referências que Jens apresenta soarem velhuscas, o sujeito é capaz de se apropriar delas de modo a manipulá-las em seu favor, emprestando sua essência às suas narrativas esquisitas. Não é estranho ouvir naipes de metais e cordas enfeitando várias passagens, uma vez que eles deixam de soar caretas demais, servindo totalmente ao nível de dramaticidade ou ironia que a faixa exige. Esse é o caso da sensacional Wedding In Finistére, percussões, metais, andamento dançante e uma história na qual ele é o padrinho de um casamento e enfrenta situações imprevisíveis. Eletrônica dançante de baixo orçamento é o pano de fundo para outra canção sensacional, How We Met, The Long Version, enquanto cordas e bandolins ornam a delicada How Can I Tell Him, outro caso de melodia perfeita. A bela – e triste – Dandelion Seed encerra o disco de forma ambivalente, com tristeza, deboche e introspecção, juntos, como muitos de nós somos.

Jens Lekman é caso raro de contador de histórias do nosso tempo. Capta nuances como poucos, disfarça sua dificuldade de adaptação com ironia, algo que não é novidade para nós. Nem precisava ser o baita compositor que é. Mais um discão.

(Life Will See You Now em uma música: How We Met, The Long Version)

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.