Resenhas

Keaton Henson – Romantic Works

Sem as armadilhas habituais do próprio trabalho, artista lança obra instrumental e poderosa

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Ano: 2014
Selo: Oak Ten Records
# Faixas: 9
Estilos: Instrumental
Duração: 31:28
Nota: 4.5
Produção: Keaton Henson

A obra de Keaton Henson contém a dimensão de sua alma e, por isso mesmo, não é uma tarefa fácil tentar decifrá-lo com as primeiras impressões de seu trabalho. A primeira coisa que se nota ao ouvir seus álbuns anteriores, Dear… e Bithdays, que habitam sempre o mesmo universo, é a fragilidade com que se mostra. Um violão que é dedilhado da maneira mais delicada possível, como se os toques de leve nas cordas se dessem, receosos, por mera obrigação. Uma voz frágil e trêmula que não se sente obrigada a esconder sua timidez, além de linhas melódicas simples, que contém apenas o essencial da mensagem que deseja expressar.

O que nem todo mundo percebe é, justamente, a força imensa que se faz necessária para expor tanta fragilidade sem filtros como Henson faz. Uma dor angustiante de possuir um amor dentro de si que paira acima da média das pessoas comuns. E uma sensibilidade marcante que torna o ato de criar algo muito distante de um mero capricho, senão uma obrigação de sua existência diante da vida, tanto alheia quanto a própria. Não apenas por todos esses motivos que antecedem a obra, mas além disso, por toda a qualidade que contém o material que Henson produz (de músicas a videoclipes, passando pelos desenhos faz) é que posso afirmar sem medo que Keaton Henson é um artista verdadeiro.

Em Romantic Works, álbum lançado de surpresa na semana passada, em parceria com o violoncelista Ren Ford, Henson aposta num novo desafio e evolui o nível da própria obra. Uma obra, a princípio, despretensiosa, gravada no quarto e que surge sem aviso prévio na qual experimenta pela primeira vez a orquestração de suas composicões, o músico substitui a fragilidade de sua voz e violão e o lirismo de suas letras, condensado seus esforços na atmosfera poderosa do piano e do violoncelo, que amplificam, de modo emocionante, sua sensibilidade. Assim, força de sua melancolia continua, mas desta vez sem as armadilhas usuais de seu trabalho, na medida em que sai das sombras da própria timidez, antes catalisada ao cantar (e, ainda por cima) as próprias letras, além de estar longe de esbarrar na pieguice da auto-piedade de seus versos.

Confessional e autoral na medida que poucos conseguem ser, embora soando extremamente abstrato (no sentido de pureza do som instrumental), seja em suas peças mais sisudas ou nos momentos mais frugais (nos quais são acrescidos barulhos de elevador e a ambiência sonora da chuva), Romantic Works é um dos grandes candidatos a álbum que funciona como trilha sonora de momentos reais, destes que elevam o cotidiano a acontecimentos poéticos. Tamanho bom gosto estético e tamanha dedicação com a própria obra, que se mistura à vida do artista, merece ser admirada. Obrigado, Henson.

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BOM PARA QUEM OUVE: Henryk Gorecki, Arvo Pärt, Philip Glass
ARTISTA: Keaton Henson
MARCADORES: Instrumental, Ouça

Autor:

é músico e escreve sobre arte