Resenhas

Kehlani – It Was Good Until It Wasn’t

Com participações de peso, segundo disco é um estudo sincero sobre relacionamentos abusivos e, ao fugir de maniqueísmos, cantora soa mais libertária do que nunca

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Ano: 2020
Selo: Atlantic
# Faixas: 15
Estilos: R&B, Rap, Pop
Duração: 39'
Produção: Kehlani, Boi-1da, R.Chahayed, Cyht, Y. Dayes, D.Foster, Go Grizzly, Jake One, KBeaZy, L. Lastic, Los Hendrix, V. E. Mfuamba, Mike & Keys, The Orphanage e outros

O segundo álbum de estúdio da Kehlani é um montanha-russa emocional. Por meio do cenário de conturbados relacionamentos amorosos, It Was Good Until It Wasn’t (2020) é um diário da cantora com uma honesta auto avaliação sobre seus sentimentos, tanto pelas pessoas que amou, quanto pelas massivas críticas na internet. São quase 40 minutos de disco em que Kehlani demanda sua liberdade enquanto expõe suas vulnerabilidades.

A internet conhece Kehlani Parrish desde que ela participou da edição de 2011 do America’s Got Talent – ou alguém se esqueceu dela cantando com Stevie Wonder com apenas 16 anos? Depois vieram as mixtapes Cloud 19 (2014) e You Should Be Here (2015), o primeiro álbum SweetSexySavage (2017) e, no ano passado, a mixtape While We Wait (2019). Ainda houve diversas contribuições a outros artistas ao longo desses anos, além de, no geral, um visível amadurecimento, tanto profissional quanto pessoal.

Apesar de sexualidade ser um tema recorrente em sua obra, Kehlani nunca foi tão conscientemente libertária quanto agora. Seu relacionamento mais recente com YG foi muito conturbado e quase sem privacidade (de “Konclusions” a “Shameful”, singles que marcaram o início e o término do namoro), então era esperado um tom de romance no próximo trabalho da cantora, mas recebemos algo ainda mais precioso. Relacionamentos tóxicos, traições, mentiras, inseguranças, ligações que você sabe que não deve fazer, mas faz mesmo assim: isso é muito It Was Good Until It Wasn’t.

A primeira faixa, “Toxic”, vem com backing vocals de Ty Dolla $ign, e logo passa a ideia que IWGUIW é o ANTI (2016) de Kehlani – e, de fato, nesse álbum a cantora aposta no Hip Hop. Ela abre o álbum com mumbles que lembram Rihanna, quando ela canta “Don Julio made me a fool for you / And now I might hit your phone up /  With that ra-ra-ra, missin’ my da-da-da”. Tematicamente, já se entrega que será um álbum sobre relacionamentos, no mínimo, complicados (“You know that dick always been problematic”). Na segunda música, conhecemos a Kehlani rapper e “Can I” é como dançar um guilty pleasure, especialmente pela sua posição no álbum (antecede “Bad News”). O refrão é uma releitura de “Come Over”, êxito de Aaliyah que entrou no Top 10 da Billboard Hot R&B/Hip-Hop Songs em 2003.

“Bad News” é mais um passo adentro na ilustração do círculo vicioso de um relacionamento abusivo, dessa vez em tom de súplica – um dos pontos mais vulneráveis do disco. Retomando o ritmo entusiasmado, “Real Hot Girl Skit” é um interlúdio divertidíssimo sobre orgulho e sexualidade sob o comando de Megan Pete. A sonoridade do álbum se equilibra dessa forma até o final: canções com cargas emocionais e batidas diferentes, às vezes opostas, nesse grande ensaio sobre relacionamentos que não são estáveis. Ainda assim, no plano geral, IWGUIW consegue ser coeso, uma vez que o foco está mais na forma como Kehlani lida com esses sentimentos, do que propriamente sobre as pessoas que ela ama.

“Water” é deliciosa, uma das melhores do disco. Rápida, mas com um piano arrebatador que mergulha no beat. A faixa inteira gira em torno da ideia sensorial da tensão sexual para a mulher e Kehlani rima e canta sem participações – e fisga a atenção durante toda a faixa. Jhené Aiko participa em uma das mais Pop do disco, “Change Your Life”, que remete ao seu ótimo Dirty Computer (2018).

A virada central do álbum é “Belong to the Streets Skit”, discussão acalorada entre amigos (suponho), com 27 segundos de duração. Os homens reclamam que mulheres saem com mais de um homem ao mesmo tempo e Jassmyn Fowlkes joga o verde: “Então basicamente o que você está dizendo é que se ela não pertence a um desses caras, ela pertence às ruas?”, ele concorda. Esse diálogo antecede uma das músicas mais tristes do álbum, em que a Kehlani cantar sobre o ódio que tem recebido online.

Em 2016, a cantora namorava o jogador da NBA Kyrie Irving, quando seu ex-namorado PARTYNEXTDOOR postou uma foto com ela, o que lhe rendeu, acusada de infidelidade, muitos ataques de ódio e slutshaming nas redes sociais. A situação foi tão perturbadora que Kehlani foi hospitalizada logo após uma tentativa de suicídio. “Everybody Business” é sensível, íntima e em tom de trégua. Em certo momento, o violão brinca com “Frontin’” de Pharrell e JAY-Z, mas rapidamente segue outro caminho, utilizando a mesma levada para falar no refrão: “I hear every word they talk / Tried not to care at all / I know it’s frontin’”.

As participações mais acertadas do disco são as de Masego, em “Hate the Club”, e de James Blake, em “Grieving”. Enquanto o primeiro domina a faixa e traz o Jazz para a carência de Kehlani se debruçar, Blake entrega versos densos, com conclusões amargas sobre términos: “Well, I can understand how you/ Would be attracted to me / Me, an ashtray for your habits / You, a moon to my sea”. Ainda sobre o tema do disco, Kehlani não se poupa e destila versos impiedosos, como em “Can You Blame Me”: “I would rather argue than me sleep alone / Rather call you out than no one call my phone”.

Uma das melhores características de It Was Good Until It Wasn’t é o fato de Kehlani não soar maniqueísta. Ela descreve uma relação co-dependente, complexa, emocionalmente densa e, ao mesmo tempo, superficial demais para se manter. Ela descreve detalhes desse processo com transparência afiada, sem eufemismos, desde a excitação em buscar drama até a inconsolável realidade concebida de que alguns relacionamentos não dão certo – e está tudo bem. Ela fala sobre como traições têm diferentes permissividades entre homens e mulheres em “Open (Passionate)”. Kehlani fala sobre como é bom se sentir excitada e como às vezes podemos chegar em comportamentos autodestrutivos buscando isso. É um disco apaixonado, frustrado, para quem não tem vergonha de amar e, inevitavelmente, quebrar a cara.

(It Was Good Until It Wasn’t em uma faixa: “SERIAL LOVER”)

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ARTISTA: Kehlani