Resenhas

Local Talent – REMOTISM

Nostálgico e melancólico, segundo álbum do trio recorre ao jazz em sua forma mais orgânica para criar refúgios em meio aos altos e baixos emocionais da pandemia

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Ano: 2022
Selo: Project Whatever Records
# Faixas: 8
Estilos: Jazz Experimental, Psych-jazz, Jazz
Duração: 30'
Produção: Projectwhatever

Quando James Hill lançou ao mundo Higienópolis (2019), o álbum de estreia de seu trio de jazz experimental Local Talent, ele não imaginava – como todos nós – que poucos meses depois viveria uma pandemia. O primeiro disco sintetiza, nas palavras do pianista, compositor e produtor canadense, a “montanha-russa de emoções” que experimentou em uma temporada no bairro paulistano.

REMOTISM (2022), segundo e mais recente trabalho do grupo, carrega o turbilhão de sentimentos desencadeado pelas privações da crise sanitária global. Lançado em 25 de fevereiro, o disco foi gravado em abril de 2021, no estúdio Revolution Recording, de Toronto, cidade em que Hill estudou piano e conheceu seus amigos e parceiros de banda Ian Wright (bateria e percussão) e Rich Brown (baixo elétrico). Naquele mês, quase há um ano, o mundo ainda vivia a angústia e a frustração das expectativas sobre o fim do isolamento social, momento que ficou registrado nos traços melancólicos, nostálgicos e emotivos de REMOTISM.

Segundo Hill, trata-se de uma “elegia [lamento ou poesia triste] para os dias de estarmos perto um dos outros sem o medo de quebrar uma lei nacional ou nos colocarmos em risco físico”, e – como diz em post do Instagram – “… sublima muitas das emoções complexas do ano passado… É meio turbulento, reflexivo e emotivo, tudo de uma vez”.

Talvez essa expressão da vulnerabilidade humana seja o motivo pelo qual o novo álbum tenha uma sonoridade mais orgânica e tradicional do jazz, menos permeada por elementos eletrônicos. Inclusive, Hill – ou Projectwhatever – mixou o disco para fita, a fim de conferir intencionalmente uma estética mais granulada e menos limpa. Mesmo assim, REMOTISM não perde a camada fresh do jazz moderno feito por grupos como o próprio BADBADNOTGOOD, em que Hill é tecladista.

A sensação de recolhimento e reflexão já se revela na introdutória “HOME 100”, na qual já brilha o baixo de Rich Brown, forrando o terreno para a tempestade orquestrada pela percussão de Wright em “SMOKE AND PRAY”. Cenas de uma paisagem urbana no meio do dia surgem na cabeça ao ouvir “GREENPOINT” a terceira faixa do disco e  uma homenagem à efervescência do emergente bairro nova-iorquino localizado no Brooklyn (NY).

Depois da turbulência inicial, chegamos à delicadeza e sutileza de “SAKAMOTO”, em que Hill presta uma homenagem ao brilhante Ryuichi Sakamoto, uma de suas maiores influências musicais. Finalmente, a quinta faixa é a homônima ao álbum, uma balada contemplativa e sentimental que, segundo Hill, “lamenta os dias de viagem perdidos e estar sempre rodeado de pessoas”.

Caminhando para o final, “THE DEVIL MAY CRY” retoma a energia caótica do início. Já em “SPIRITS”, uma melodia no saxofone nos envolve com conforto e aconchego. A faixa conta com a participação do Autobahn Trio, primeiro projeto formado por Hill em Toronto, que também está creditado na tensa “CONTROL CENTER”, faixa que encerra o registro.

Em entrevista ao Monkeybuzz, na ocasião em que a Local Talent colocou seu primeiro projeto no mundo, Hill diz que “um trabalho de arte necessariamente reflete o lugar onde foi criado”. Se Higienópolis claramente evoca um lugar físico, podemos dizer que REMOTISM fala a partir de um lugar mental e emocional, em que muitos nos encontrávamos um ano atrás.

Com o talento inquestionável do jovem trio de músicos, REMOTISM nos coloca em cenários de tempestade e de calmaria, de escuridão e luz, de caos e ternura. É um interessante registro de um ano de incertezas e mudanças, no qual a arte mais do que nunca se mostrou um refúgio para sentimentos inexplicáveis e a readaptação a uma nova realidade.

(REMOTISM em uma faixa: “REMOTISM”)

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ARTISTA: Local Talent

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