Resenhas

Lorraine James – Reflection

Terceiro disco da produtora britânica retoma sonoridade caótica, mas usa a suavidade do R&B para tentar digerir um mundo repleto de contradições

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Ano: 2021
Selo: Hyperdub
# Faixas: 11
Estilos: R&B, UK Garage, Drill
Duração: 37'
Produção: Lorraine James

2019 foi o ano em que o mundo se abriu para Lorraine James. Com o sucesso de crítica de seu segundo disco, For You And I, a produtora londrina obteve alcance mundial ao compartilhar com o mundo sua sonoridade potente, aliada a um discurso de empoderamento queer e negro. A partir de uma precisa mistura de subgêneros da música eletrônica londrina, Lorraine apresentou um estilo único em suas experimentações, distorcendo samples até o talo e libertando-se de qualquer estrutura rítmica convencional.

É como se seus discos trouxessem uma narrativa muito livre, repleta de sonoplastias e picos surpreendentes. Somado a isso, suas vivências enquanto uma mulher negra queer ecoam lutas e ressignificações, impulsionadas por sua autenticidade sonora. Tal qual o estilo único que criava, sua história também é muito particular e este segundo disco mostrou aos ouvintes que essa é uma história que merece ser ouvida com atenção. Entretanto, em 2020, quando estava planejada uma grande turnê mundial, na qual colheria frutos de um disco tão rico quanto aquele, o mundo teve que parar.

A pandemia foi um período difícil para a saúde mental de todos, e Lorraine não foi exceção. Apesar de contar sua história com tanta convicção e certeza, a produtora inglesa desabafou em uma entrevista para a revista Crack que a validação da comunidade LGBTQIA+ era de extrema importância para que continuasse a produzir suas músicas. Mesmo mantendo o contato online, a falta do calor humano e do contato presencial afetou sua saúde mental seriamente. Além disso, a morte de George Floyd e os sucessivos protestos que integraram o movimento Black Lives Matter, contribuíram para que Lorraine tivesse a sensação de que o mundo tinha parado. O mundo que a produtora iria conquistar já não existia mais. Mas, apesar dele ter parado, seu mundo interno nunca deixou de estar em movimento. Dessa maneira, com tanto a ser processado por sua mente, apenas uma nova expressão daria conta de suprir essa demanda interna. Assim surge seu terceiro disco, Reflection.

Reflection é o trabalho de uma digestão lenta e penosa de acontecimentos que ainda estão sendo processados. Assim, parte do disco envolve essa característica de fragmentação, retomando a estética experimental do segundo álbum. Lorraine faz cortes precisos nas partes essenciais de cada referência que traz para a mesa. A agressividade da Glitch Music, a rapidez do UK Garage, a agilidade do Drum ‘N Bass; todos eles são recursos preciosos para que a produtora nos mostre como conseguiu elaborar tudo desde o ano passado.

Mas, ao mesmo tempo que caótico, Reflection cria espaços para que referências sejam adicionadas – não necessariamente referências inéditas, mas certamente com um peso maior. Talvez a mais evidente entre estas seja o R&B, que se manifesta por entre melodias mais suaves e acordes mais fluidos e menos agressivos. É como se, entre o caos daqueles recortes primários, surgisse uma voz que cria uma harmonia leve, produto desta exaustiva, porém significante jornada de Lorraine.

Em parceria com Xzavier Stone, a faixa “Built To Last” traz uma mistura de caos e calmaria – uma forma de mostrar do que é feito este disco. “Simple Stuff”, por sua vez, já aposta na percussão desorganizadora que serve de fundo para que Lorraine se questione sobre o sentido que as coisas simples da vida lhe trazem. “Insecure Behaviour and Fuckery” apresenta uma faceta mais evidente dos acordes típicos da House Music, porém retrabalhados sob uma estética menos constante e mais à deriva da emoção. O produtor norte-americano Baths põe sua voz para a catártica “On The Lake Outside”, momento em que surge força reflexiva da Ambient Music, aliada ao peso de batidas intensas da Glitch Music. “Change” tem uma das características principais da obra de Lorraine James: a escolha minuciosa de timbres de sintetizadores, que trazem uma dualidade de nostalgia e futurismo em um mesmo espaço. E a faixa que encerra o disco se vem em tonalidades quebradas de R&B para manifestar o aviso geral do repertório em seu título: “We’re Building Something New”.

Reflection pode ser de uma escuta difícil em momentos mais caóticos, mas ele reflete um mundo que caminha em igual sentido. Talvez por isso haja o contraste com melodias mais suaves, como uma tentativa de dar respiros e significados a este montante de informações que recebemos de uma vez só. O mundo que Lorraine James digere ainda é cheio de contradições e estridências, e ela busca traduzi-lo com ternura em meio ao caos.

(Reflection em uma faixa: “Change”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.