Resenhas

M83 – Junk

Novo álbum é uma declaração de amor aos sons menos nobres dos anos 1980

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Ano: 2016
Selo: Mute
# Faixas: 15
Estilos: Ambient Pop, Pop Alternativo, Eletrônico
Duração: 55:37
Nota: 4.0
Produção: Anthony Gonzalez, Justin Meldal Johnsen

Vamos direto ao assunto: este é um álbum que olha com carinho enorme para a música Pop dos anos 1980. Carinho e uma certa dose de conceito, até porque, aquela década é o ponto de partida para a maioria esmagadora dos artistas em atividade hoje. Claro, há aquela intransferível parcela pessoal, fruto do talento – ou falta dele – em meio às criações, o que, felizmente, não é o caso deste sintomático Junk, mais recente trabalho de M83. O que entendemos por “conceito” por aqui é simples de explicar: não se trata de uma mera sucessão de faixas cheias de timbres e sonoridades oitentistas, mas sim de uma homenagem ao que a gente entende por “lixo musical” daquele tempo, algo que o senso crítico da época julgou como descartável, comercial, sem valor e que, graças à grande roda do tempo manter-se em movimento, sempre pode mudar, por conta de revalorizações e reinterpretações.

O que não faltam são boas referências por aqui, não só da época, mas de revisitações feitas recentemente com a mesma intenção “conceitual” e artística nessa missão de reinterpretação: Random Acess Memory, de Daft Punk e Kindred, da banda de um homem só Passion Pit. Anthony Gonzalez, cérebro por trás de M83, nascido em 1980, é um dedicado fã daquele mundo. Desde que lançou o belo Saturdays = Youth, em 2008, ele vem se dedicando a inventariar vários aspectos musicais perdidos naqueles anos estranhos e que foram combustível para a sua própria carreira musical. Há três anos, Gonzalez assinou a trilha sonora do bom filme de ficção cientifica Oblivion, estrelado por Tom Cruise, se dando o direito de emular as sonoridades de gente como o compositor grego Vangelis ou o grupo alemão Tangerine Dream, pisando fundo no terreno do Eletropop Sinfônico, algo que só pode ser coisa de fã maluco e inveterado. Em Junk, como o título entrega, Gonzalez e Meldal-Johnssen se permitem excursionar por um ferro-velho de lembranças musicais.

Não sei para vocês, jovens, mas para o velho aqui, nascido em 1970, tudo isso parece bem divertido e, acima de tudo, bastante fiel ao que existia há 30 anos. Há momentos bem emblemáticos ao longo do álbum, nos quais é visível a felicidade de Gonzalez, certamente livre de qualquer obrigação de soar classudo ou elegante. A primeira faixa, logo de cara, Do It, Try It, é um senhor exemplo de Technopop clássico, quase resvalando para o que os especialistas chamavam de Europop, uma forma de música Pop e Eletrônica, que abusava de timbres sinfônicos e bombásticos. A cantora Mai Lan, francesa de ascendência asiática, participa de várias canções, entre elas da caprichada Go!, belezura de canção meio dançante, meio romântica, algo que não se vê mais por aí e da climática Bibi The Dog, com vocais declamados sobre base sintética qualquer nota, intencionalmente colocada para dar ensejo ao mistério noturno, ainda que seja tudo ingênuo de propósito.

É em pequenos momentos surpreendentes que Junk mostra seu brilho: a instrumental Crystal Moon, é uma homenagem sincera e sensacional aos temas televisivos de programas picaretas de turismo ou entrevistas, que passavam em emissoras de baixo orçamento. As trilhas desse tipo de atração eram tropicais, tecladeiras, luxuriantes, tentando soar ensolaradas, mas sempre exagerando na mão. Gonzalez consegue o ponto exato para homenagear essas sonoridades picaretas sem sair do clima do álbum. A bela For The Kids tem vocais de Susanne Sundfor e um inequívoco solo de saxofone romântico, canastrão na medida certa, configurando um quase autêntico baladão de FM. A dramática Solitude investe em pianos climáticos e andamento cadenciado, meio a vocais espaciais e cheios de efeitos, enquanto Atlantic Sud tem vocais em francês, divididos entre Gonzalez e Mai Lai, dando pinta daqueles duetos com melodia ao piano, ciscando audaciosamente no terreno da música brega e derramada da época.

O fecho do álbum tem duas outras belezuras: a aerodinâmica Time Wind, que traz a participação sempre legal de Beck e a chiquérrima Sunday Night 1987, cujo título explica tudo, inclusive o inesperado solo de harmônica que surge lá pela metade da faixa, trazendo todo o clima deste tipo de canção romântica, esquecida hoje em dia. M83 fez um belo trabalho por aqui, equilibrando referências, brincando com conceitos e dando a impressão de ter gravado exatamente o que queria, sem qualquer tipo de percalço ao longo da criação e execução do álbum. Indicado para saudosos, recomendado para curiosos, Junk é coisa nossa.

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BOM PARA QUEM OUVE: Passion Pit, Daft Punk, Neon Indian
ARTISTA: M83

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.