Resenhas

Mahmundi – Mundo Novo

Um convite a uma vida mais atenta e um capítulo singular na trajetória de Marcela Vale

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Ano: 2020
Selo: Universal Music
# Faixas: 7
Estilos: MPB, Pop
Duração: 21'
Produção: Marcela Vale e Frederico Heliodoro

“Tudo é pra aprender, tudo é pra evoluir”. Mundo Novo é um capítulo singular na trajetória de Marcela Vale como Mahmundi. Como ela mesma explica, sua intenção era estar mais livre para cantar suas novas músicas, e menos atarefada com a produção (que ela escolheu dividir com Frederico Heliodoro). Como resultado, o disco apresenta um momento inédito esteticamente para sua carreira, ao mesmo tempo em que se conecta ao que ela vem construindo nos últimos anos tanto nas letras, quanto em suas investigações da música Pop.

Mahmundi virou sinônimo de sintetizadores carregados, herança direta de gente como Marina Lima. Anos (e discos) depois, Marcela propõe agora um trabalho com mais cara “de banda”, mais alinhado às expectativas que muitos podem ter de uma MPB desta geração. Só esta mudança de ares já seria suficiente para conferir todo um status de “Mundo Novo” ao seu trabalho, mas essa questão possui em si várias outras camadas.

Após a faixa introdutória – uma fala do cantor Paulo Nazareth sobre as relações interpessoais serem “a mãe da nossa humanidade” –, a voz de Marcela surge com comentários fragmentados e observadores, do hype em torno de Kanye West aos pequenos detalhes da vida perdidos por quem apenas mirava o celular (ou a “Nova TV”). Na sequência, “Convívio” volta ao tema da introdução e debate o autoconhecimento que surge a partir do contato com o outro (“eu me conheço mais / olhando pra você eu vou / descobrindo que eu sou / e penso agora no que você vê”).

É uma poesia afinada para o que Marcela sempre propôs durante os shows, entrevistas, redes sociais e, claro, músicas: um convite a uma vida mais atenta. Nesse contexto, é interessante perceber como suas canções românticas falam de um amor que nunca é uma distração, mas uma oportunidade de aprender a conviver com o outro e consigo mesma (“temos uma fome gigante no viver”, como ela canta em “Nós de Fronte”, música sobre vencer medos e se permitir o envolvimento. O tema se repete na seguinte, “Sem Medo”, lar dos versos que abrem este texto).

“Vai” encerra o álbum como seu momento mais melancólico, ainda que em par com o que foi cantado até ali. Nela, o eu-lírico vê chegar o fim de uma relação e, consciente da situação (“não posso mais te dar o que você já esperou”), propõe um término que “guarda bem a lembrança”, “abre um sorriso e vai”. Tratando-se de Mahmundi, o ouvinte sabe que não há nem frieza, nem uma cara de “gratiluz”, mas a perspectiva de que os relacionamentos amorosos, ainda que com suas particularidades, também estão aí para aumentar nossa perspectiva sobre a vida e sobre nós mesmos.

Pode parecer utópico para alguns, mas é com esses ideais em vista que conseguimos expandir nossas realidades. Sem abrir mão da poesia, nem de um som Pop bem feito, Mahmundi nos encoraja a deixar a vida ser maior, e, assim como no envolvimento sincero com alguém (em amizade, família ou romance), observar um Mundo Novo nascer a cada dia – ou disco.

(Mundo Novo em uma faixa: “Convívio”)

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ARTISTA: Mahmundi

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.