Resenhas

Matthew E. White – Big Inner

Em sua estreia, o cantor traz uma mistura de Folk com Soul que eleva o estado de espírito de seus ouvintes

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Ano: 2012
Selo: Spacebomb
# Faixas: 7
Estilos: Folk, Folk Psicodélico , Soul, Gospel
Duração: 41:00
Nota: 4.0
Produção: Spacebomb

Escutar Big Inner, debut de Matthew E. White soa como passear por campos floridos, bucólicos e cheio de pessoas despretensiosas com a vida, mas felizes com isso. A sensação de que a vida é fácil quando levada bem devagar ecoa como um mantra por essa agradável surpresa de 2012.

Seu som tem um quê de música de Psicodelia, misturado com Folk e muita música negra, principalmente Gospel e Soul. Sua voz delicada e calma lembra bastante a de Beck em Sea Change, e recebe o amparo de uma instrumentação leve, mas precisa. Os temas de suas músicas navegam pelo espiritualismo e a Biblía, mas é na forma como Matthew conduz as suas músicas que a “graça” é alcançada, com diversos coros e mantras que elevam o estado de espírito do ouvinte.

Curto mas marcante, o disco tem em suas sete músicas muito do bucolismo da região que o cantor vive, o sul dos Estados Unidos, mais precisamente a Virgínia. Quando One Of These Days começa, nos vemos caminhando pelas fazendas aristocráticas da região em um dia que o sol demora a desaparecer. O jeito de Matthew de cantar, quase ao pé do ouvido, transparece uma sabedoria que um padre talvez não tenha. Ao fundo, sopros e coros femininos são elevados de forma devagar, deixando tudo, aos poucos, tranquilo e em paz.

Big Love é mais agitada e a boa interação entre piano e baixo já deixam os pés mexendo involuntariamente. Não estranhe estar dançando e cantando este mantra sobre amor ao final da canção. A troca de vozes entre Matthew e seu coral ao final, com só piano e sopros, é maravilhosa e tem a capacidade de te fazer esquecer tudo ao seu redor: trânsito, preocupações e responsabilidades.

Will You Love Me lembra os bons momentos do Soul dos anos 70, em que canções sobre amor eram tocadas com naturalidade e não artificialidade. É uma faixa mais terna que sexy, mas ao mesmo tempo tentar achar alguém para escuta-la se faz necessário. O amor verdadeiro é encontrado e a única vontade é a de viver uma vida bem devagar ao seu lado.

Em Gone Away, conseguimos sentir Matthew sorrindo já nas primeiras estrofes – a vida é simples demais para ser perdida com besteiras mundanas. Dividida em duas partes, tem na primeira instrumentos sendo acrescentados a sua voz, enquanto parecemos caminhar em conjunto, rumo à salvação. A segunda tem White dizendo “He will break your kingdom down He will tear your kingdom down He will save your kingdom down”. Deus parece ser tão humano quanto qualquer um de nós e a graça acaba vindo do belo coro de vozes e não via as suas ações.

Steady Pace, retorna ao Soul mais dançante de Big Love e as figuras de uma missa negra, bem clichê de filmes, vem à cabeça. Pessoas dançando e cantando, jogando os chapéus pra cima enquanto uma banda que está lá, acima de tudo, para entretê-los, coloca todos para chacoalhar o esqueleto.

Hot Toddies é linda e tem White sendo acompanhado por somente um orgão durante boa parte da música. Quando sua voz já conquistou o ouvinte, outros instrumentos são acrescentados para somente consolidar esta que é uma das mais belas canções do disco. No final, uma improvisação no Jazz continua a espiritualidade que permeia o disco, mas dessa vez de forma mais introspectiva.

Brazos é a consolidação dessa curta obra. Os quase dez minutos de faixa, na qual Matthew diz “take it easy baby, take it easy baby tonight”, nos trazem a felicidade que as religões procuram trazer. Entretanto é na música, e não na doutrina, que somos convencidos de que a vida pode ser muito mais bela do que imaginamos. O mantra que encerra o disco é cristão, com versos “Jesus is our Lord, Jesus Christ is your friend”, e tem não nos seus dizeres, mas no ritmo criado com piano e vozes, a capacidade de agraciar o seus ouvintes. Como o final feliz de um filme, todos se abraçam nos créditos para cantarem juntos até o último letreiro, ou som nesse caso.

Matthew E. White consegue convencer que a música é muito maior que a religião, quando em seu disco de estreia aborda temas espirituais mas sem deixar de trazer, primeiramente, essa espiritualidade através de acordes e de sua bela voz. Afinal não estamos para julgar a fé mas sim capacidade transformadora da música, forma de entretenimento que procura alegrar as pessoas. E isso Matthew consegue alcançar de forma magnífica.

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Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.