Resenhas

Military Genius – Deep Web

Percorrendo os sinuosos caminhos da memória, integrante do coletivo Crack Cloud lança trabalho refinado e experimental e o embala em estética Industrial

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Ano: 2020
Selo: Tin Angel Records
# Faixas: 8
Estilos: Experimental, Industrial, Pós-Punk
Duração: 35'
Produção: Bryce Cloghesy

 

Reunindo artistas de diferentes nacionalidades, o coletivo Crack Cloud tem manifestado diversas expressões artísticas desde seu início. Além da criação conjunta, um dos motivos pelos quais o coletivo foi criado diz respeito a um passado comum entre a maior parte de seus integrantes: a batalha contra a drogadição. Apesar de um estigma do qual o grupo tenta se livrar quando cede entrevistas (mesmo o reconhecendo), seus membros colocam a arte como uma espécie de sublimação/ressignificação das diferentes experiências vivenciadas durante este período – ou, mais do que isso, como um veículo de cura.

Ainda que haja pontos em comum entre os diversos discos, as instalações artísticas e outras produções do coletivo, o apelo de Crack Cloud reside na singularidade de cada uma delas. Na forma como cada um lida com seus próprios processos. É neste contexto que as particularidades do integrante Bryce Cloghesy se constroem, em seu primeiro disco solo lançado sob a alcunha de Military Genius. 

Deep Web é um trabalho que tem como elemento primordial a experimentação em prol de uma narrativa. Narrativa que pede abstração por parte do ouvinte, já que não é construída sobre uma linha temporal definitiva. A história aqui é contada por Bryce por meio de sentimentos, intenções e espectros emocionais distintos, sem necessariamente definir para o ouvinte o começo, meio e fim da história. Somos convencionados a colocar o início do disco na primeira faixa, mas a sensação é de que somos lançados a um universo já construído, sem saber suas bases afins. No texto de apresentação do disco, Bryce explicita os diversos temas que explora pelas oito faixas: turbulência política, autodescobertas, jornada espiritual, abandono, estados alterados de consciência, entre outros.

Assim, a pluralidade de temas se reflete na diversidade do disco. Às vezes, uma mesma composição comporta elementos totalmente diversos. A faixa de abertura “Deep Web”, por exemplo, funde temas brandos de saxofone, baterias aceleradas e agressivas com vocais aéreos e guitarras Shoegaze. Já “Focus” procura se manter fiel a uma estética mais calma e psicodélica, resultando em um som que parece ter sido retirado de um catálogo obscuro dos anos 1960. “When I Close My Eyes” coloca uma batida insistente que incrementa um desconcerto constante, à medida de Bryce suavemente sussurra em nosso ouvido – uma bad trip perturbadora e intrigante. Já “Reflex” dispensa a percussão rítmica e apresenta uma ambientação hipnotizante, que traz o ouvinte para o núcleo do sentimento de Bryce. Por fim, “Born Blind”, uma balada tipicamente Folk, consegue coexistir harmoniosamente com o experimentalismo, principalmente pelo aspecto sincero que o permeia.

Mesmo com tantas peculiaridades em cada faixa, o disco ainda se mantém coeso e unificado sob uma mesma aura industrial e de baixa fidelidade.  Aura que parece construir um aspecto de memória por todo o disco e, assim, evocar um espírito nostálgico. Deep Web é mais do que um disco sobre o processo de cura, mas um registro que nos fala a respeito do que vem depois, as possibilidades de ressignificar e seguir adiante. Um álbum que expressa o emaranhado de sentimentos, fatos passados que insistem em nos assombrar e angústias que vêm e vão. Ou simplesmente um disco sobre a memória.

(Deep Web em uma faixa: “Born Blind”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.