Milo – Budding Ornithologists Are Weary Of Tired Analogies

Registro do talentoso rapper traz pluralidade de temas sob ponto de vista crítico

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Ano: 2018
Selo: Ruby Yatch/The Order Label
# Faixas: 15
Estilos: Sample Based, Lo-fi Hip Hop
Duração: 38:15
Nota: 4.0
Produção: Kenny Segal, Ol Burger Beats, Scallops hotel, Mt Marcy, Randal Bravery, Steel Tipped Dove, e Q The Sun

Quando pensamos em nomes fortes do Hip Hop, às vezes cometemos injustiças de selecionar alguns nomes mais populares como representantes de um discurso direto e potente, como Kendrick Lamar, Tyler The Creator e Kanye West. A injustiça reside no fato de que não podemos apenas confiar no número de fãs como um indicativo, sendo que nomes menos populares podem, às vezes, nos surpreender com a qualidade e a crítica ríspida de suas rimas.

Milo talvez seja o maior representante deste grupo de rappers que nem sempre tem espaço merecido. Ainda que possua um certo renome, nem sempre é proporcional à qualidade de sua complexa obra. Um jovem de 26 anos que construiu sua obra a partir de um discurso filosófico sobre a sua realidade, trocando o ataque direto por metáforas ácidas e sorrateiras que, por vezes, são até mais poderosas. Um de seus últimos discos who told you to think??!!?!?!?! trouxe reflexões sobre a realidade em um momento crucial da história norte-americana e, agora, seu novo registro traz uma série de novas discussões e rimas sem necessariamente se delimitar em um tema, revelando-se assim, catártico.

budding ornithologists are weary of tired analogies traz novamente a chama intensa do talento de Milo como exímio letrista e desta vez, ele mesmo assume que seu disco não aborda especificamente uma temática. Assim, estas 15 faixas funcionam como silogismos gerais e nos encantam justamente pela forma como o rapper consegue descrever e analisar o mundo que o rodeia. E, nesse sentido, é interessante como as coisas mais cotidianas e banais servem como um combustível eficaz para estimular o olho crítico e minucioso de Milo. Temas como videogame, saúde mental, xamanismo, mitos e racismo são reunidos sob uma mesma ótica, como se o compositor abrisse uma parcela de sua mente na qual tudo está misturado e conectado ao mesmo tempo. Um trecho de suas epifanias diárias.

Transitando no terreno das batidas quebradas e Lo-fi, o disco abre as portas para a mente de Milo com mythbuilding exercise no. 9, uma composição viva que mistura tecnologia, drogas e o jogo Diablo. pure scientific intelligence (quantum) usa conhecidos arranjos Lo-fi Hip Hop para debater o recorrente e infinito debate de religião e ciência. Samples difusos de Jazz ganham uma espécie de explosão sinestésica na curta, porém estarrecedora, lowcoup. Suave, romulan ale repete um sample exaustivamente em uma espécie de labirinto traiçoeiro que cada vez se adentra mais na mente de Milo. sanssouci palace (4 years later) revisita o passado, tecendo comparações sob uma base tranquila e com dedilhados de piano.

O novo disco de Milo talvez seja um ótima pedida para alguém que desconhece seu trabalho, visto sua pluralidade de temas e a consolidação da certeza que tem de sua sonoridade enquanto produtor. O rapper faz jus às suas palavras quando diz que “Todas minhas canções se tornam feitiços”. Um disco cuja riqueza nos pega na alma.

(budding ornithologists are weary of tired analogies em uma faixa: galahad in goosedown (fiat iustitia et pereat mundus))

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BOM PARA QUEM OUVE: [bsd.u], Nunjabes, Open Mike Eagle
ARTISTA: Milo

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.