Resenhas

Nathan Dies – Instinto

Músico paulistano estreia em carreia solo com disco confessional, transitando entre o Alternativo e o Pop

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Ano: 2021
Selo: Rockambole
# Faixas: 8
Estilos: Indie, Pop, Dream Pop
Duração: 24'
Produção: Nathan Diesendruck

Os diários de adolescência já não são tão populares quanto em décadas passadas. Ainda mais em tempos em que o digital tem um domínio tão grande nas relações humanas, não é tão comum reservar um tempo (hoje, escasso) para escrever sobre nossas vivências ou confidenciar segredos. Entretanto, há quem ainda procure perpetuar essa prática, talvez não da mesma forma de 30 anos atrás, com cadernos e cadeados, mas mantendo a mesma carga afetiva de um espaço no qual todas as subjetividades são derramadas. Esta parece ser a visão do cantor, compositor e produtor musical Nathan Diesendruck.

Seus primeiros experimentos vieram com a banda Bacos, quando se apresentou em circuitos universitários, até se jogar de vez na produção musical e ir estudar em Berklee. Longe de se tornar um erudito tradicionalista, Nathan juntou o estudo, a vivência do intercâmbio e as histórias da cena independente paulistana para, enfim, produzir seu diário musical. Nathan mostra em Instinto não episódios e vivências diretas e literais, mas uma amálgama concentrada de suas próprias percepções. Atravessamentos políticos, amoroso e afetivos – da infância e da adolescência – formam a faísca inicial para que ele possa colocar tudo de si dentro desta narrativa. A expertise na produção musical lhe é particularmente útil para retirar, de cada instrumento e arranjo, elementos essenciais para a narrativa.

Munido de um arsenal referencial que vai do Pop ao Indie, alternando entre ecos brasileiros e americanos, Nathan convida o ouvinte para diferentes mundos, que, embora complexos, são amarrados com harmonia e certa singeleza. Mutante, porém leve. Instinto inicia trazendo a infância/adolescência de Nathan à tona na faixa “Gracinha”, composição etérea que já nos submerge entre as vivências relevantes para compreender o artista. “Raio” traz clara as melodias brasileiras como um recurso quase narrativo – os altos e baixos de uma história. A partir da segunda metade do disco, começam as faixas cantadas em inglês, quase separando estes dois momentos da vida do artista. “Love Song”, por exemplo, se apoia em beats eletrônicos, e pare ressoar fases da vida em que nossos sentimentos se complicam e emoções intensas nos invadem “Dayquilled” encarna, no som, um astral alegre, mas traz uma letra que caminha na direção oposta – o famoso mood “dançando tristinha”. Por fim, “Call Me Back” junta uma melodia psicodélica a um quê de Beatles, uma das investidas mais deliciosas do disco.

Transitando entre gêneros, timbres e vivências, Nathan Dies faz um exercício de desconstrução do diário-adolescente-padrão. Ele expõe ao mundo tudo aquilo que viveu, mas o mistério permanece a partir de metáforas e símbolos potentes. E entre dosagens Alternativas e Pops, sua experiência permanece instigante pela oito faixas.

(Instinto em uma faixa: “Call Me Back”)

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ARTISTA: Nathan Dies

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.