Resenhas

Negro Leo – Desejo de Lacrar

Dissonante e psicodélico, álbum tira o ouvinte da zona de conforto e constrói retrato abstrato do cotidiano atual

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Ano: 2020
Selo: YB Music
# Faixas: 10
Estilos: Experimental
Duração: 29’
Produção: Sérgio Machado

O ouvinte versado na vanguarda brasileira – dos últimos 100 anos – logo reconhecerá vários dos elementos que formam Desejo de Lacrar, e o experimentalismo, talvez, seja a característica mais marcante. Ou melhor, a abordagem de evidenciar que a obra é experimental, ou apenas despreocupada em se conformar com qualquer expectativa que se possa ter a seu respeito – o que também não é necessariamente de hoje.

Os movimentos vanguardistas que se construíram ao longo do século 20 no Brasil sempre carregaram o estranhamento como uma de suas principais munições, de Mário de Andrade a Lygia Clark. O teatro talvez seja a maior dessas expressões, até por termos um grande pensador, mestre e produtor vivo e atuante, Zé Celso. Como sua obra nos ensina, a arte pode ser sensorial para além do suporte em que é apresentada (ou seja, música não é só audição), e todas as sensações no corpo e na psique também comunicam a mensagem.

Dando continuidade a esse legado e a essa proposta, Desejo de Lacrar começa já com vocais sobrepostos e contrastantes, estabelecendo uma espacialidade sonora e lírica de conteúdo crítico e, sobretudo, já nos coloca dentro do estranhamento que Negro Leo propõe. “Dança Erradassa”, na sequência, dá a impressão de que trará algum alívio ao ouvinte em sua brincadeira com a musicalidade Pop. Entretanto, o som abafado e a dinâmica torta e cambaleante, que atropela métricas e traz diversas pequenas surpresas ao longo de sua progressão, mantêm o ouvinte em alerta constante – fora de qualquer zona de conforto, sabendo que o inesperado continuará a cada faixa.

Dissonante e psicodélico, o álbum mostra também preocupação com a época de produção e lançamento. A própria lacração, conceito contemporâneo comum às interações online, é mais do que um tema que aparece nas letras. A energia da argumentação voraz, às vezes até ingênua em seu ímpeto de se sair por cima, é outra base na construção da vibe do disco. É a tensão em “Absolutíssimo Lacrador”, a interpretação quase debochada em “Makes e Fakes” ou o scat imprevisível em “Esplanada” – cada detalhe contribui para, em diferentes níveis de abstração, a construção de um retrato da vida em nossos dias.

Em cada um dos passos dessa estrada, Leo mostra sua fluência nas musicalidades contemporâneas e brasileiras: há espaço para violões referenciais da MPB (“Tudo Foi Feito pra Gente Lacrar”), Rock Psicodélico (“Eu Lacrei”) e até um Jazz acompanhado por assobio (“Outra Cidade”), por exemplo. O resultado é uma obra que reforça o lugar que o músico conquistou dentro da vanguarda de hoje em dia no país, a mesma classe artística que vem, dentro de seus contextos históricos, produzindo uma arte de estranhamento que incomoda pelos motivos certos.

(Desejo de Lacrar em uma faixa: “Absolutíssimo Lacrador”)

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ARTISTA: Negro Leo

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.