Resenhas

Simian Mobile Disco – Whorl

Novo álbum da dupla inglesa busca pureza estética, mas derrapa na sonolência

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Ano: 2014
Selo: Epitaph
# Faixas: 11
Estilos: Eletrônico, Ambient, Neo-Electro
Duração: 61:43min
Nota: 2.5
Produção: Jas Shaw

Vou dar um exemplo do que podemos esperar do novíssimo álbum da dupla inglesa Simian Mobile Disco: Programei as faixas para ouvir enquanto estudava um texto teórico sobre origens do populismo no Brasil pós-1930. O resultado? Não me dispersei por um instante sequer da narrativa. Talvez minha conclusão nesse momento fosse muito cruel e revelasse um viés insuficiente para a devida análise do disco. É claro, ouvi novamente, mais algumas vezes, antes de chegar ao veredito final: É chato mesmo, gente.

Não se trata de preconceito contra música Eletrônica numa esfera mais, digamos, teórica ou formal. Foram os blips e blops que deram mais fôlego à música Pop mundial a partir dos anos 1970 e se incorporaram como ferramentas utilíssimas. Existe no subterrâneo dessa influência toda uma abordagem técnica e pura dos conceitos da eletrônica, nos quais ela existe em maior quantidade que as estruturas musicais mais, digamos, usuais. Sendo assim, qualquer disco que procure visitar essa sonoridade, correrá o risco de descambar para a genialidade ou para a monotonia, sem possibilidade de terceira via.

Whorl é um álbum distinto na carreira da dupla. Desde 2006, James Ford e James Shaw levam adiante a sua versão século 21 da fusão eletrodançante sem muita novidade, mas com competência e esmero. Visitaram e ampliaram os limites da cena Club contemporânea com álbuns legais como a estreia Attack Decay Sustain Release, lançada em 2006, cheia de batidas pulantes e conhecimento de causa da música eletrônica da década de 1990, momento em que ela esteve a poucos passos de representar novidade de fato no grande bololô cultural do fim do milênio, fato abortado lá por volta de 1997/98, quando escolhas estéticas foram feitas e a vaca foi para o brejo. SMD conseguiu certa visibilidade e relevância com a abordagem 00’s para a música dançante, ou seja, cascatas de batidas puláveis, tecladeira computadorizada com gadgets de laptop e criatividade suficiente para dar conta disso, mas não o bastante para dintinguí-la das outras duplas na mesma seara.

Agora, os dois James resolveram radicalizar: deixaram de lado toda a aparelhagem e reduziram seu arsenal para dois sintetizadores vintage, além de dois sequenciadores, ou seja, um par por integrante, e resolveram partir para o Deserto de Joshua Tree, na California, para encontrar inspiração e paz para recomeçar. O tal deserto, que está na capa do disco homônimo de U2 de 1987, deveria cobrar ingresso para a quantidade de artistas que ruma em sua direção em busca de recomeço mas isso é só uma nota de humor em meio ao todo. O fato é que Whorl é o resultado desse encolhimento e dessa busca por novidades, trazendo um resultado muito mais retrô que qualquer outra coisa. Saem as batidas dançantes e as linhas de baixo e entram as camadas de sintetizadores viajantes, esvoaçantes, com pinta de sobra de estúdio de trilha sonora de filme de ficção científica dos anos 1980.

As origens sonoras do disco remontam à música de bandas como Cluster ou Tangerine Dream, mas sem a aventura que esses grupos viveram em fundar os alicerces da fusão dos ritmos eletrônicos com certa dosagem de abordagem Pop. Fazer isso hoje soa mais com um exercício de estilo. Canções como Tangents, Jam Side Up e Iron Henge conseguem escapar do conceito do álbum, adicionando sombras de batidas e certa boa vontade rítmica. Não se trata de detestar as canções mais viajantes, mas Sun Dogs, Dandelion Spheres ou a abertura com Redshift, são tediosas e nos fazem crer que a tal renovação que a banda buscou foi, na verdade, uma justificativa para fazer um álbum minimalista e datado. Que voltem os ritmos.

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BOM PARA QUEM OUVE: Aphex Twin, Air, Brian Eno

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.