Resenhas

Sisyphus – Sisyphus

Projeto de Hip Hop encabeçado por Sufjan Stevens e Son Lux mostra bastante potencial e deve agradar ao público que não é cativo do gênero

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Ano: 2014
Selo: Asthmatic Kitty Records,Joyful Noise Recordings.
# Faixas: 11
Estilos: Hip Hop, Indie Rock
Nota: 3.0
Produção: Son Lux

Já há um tempo que o Indie Rock – como gênero macro que engloba todas as suas variações e estilos – vem se conectando com o Hip Hop. Seja através de participações especiais, como Lil Wayne em um disco do Weezer ou Chance The Rapper rimando sobre as batidas de James Blake, exemplos não faltam para expressar as interações que surgiram a partir do interesse dos artistas. O próprio Warpaint se inspirou na música negra para criar um disco que bebe de alguns de seus elementos, mesmo que discretamente, e Gorillaz talvez seja o grupo de maior sucesso nesta mistura sonora, desenvolvendo um som autêntico e original.

Sisyphus nos tomou por uma curiosidade imensa ao despontar como o projeto paralelo de Sufjan Stevens, Son Lux e o rapper Serengeti. O triplo “s” surgiu a partir da vontade dos músicos criarem uma produção que abordasse o Hip Hop com outra ótica e podemos dizer que o autointitulado trabalho de estreia é interessante e com potencial para se tornar algo ainda maior. Sem se desassociar dos elementos que o compõe, o álbum é repleto de referências à identidade de seus músicos – o que deve agradar principalmente os fãs de Stevens, os quais podem se deliciar com o costumeiro lado triste de suas letras, mas, dessa vez, com algumas rimas adicionadas para trazer uma nova quebra sonora.

Se o músico de Detroit cuidou das letras, melodias e das cordas, como o mesmo afirmou em uma engraçada entrevista, Son Lux ficou responsável pelas batidas e produção sonora, enquanto Serengeti criava rimas e não deixava o ritmo fugir da música negra de suas origens. Algumas coisas, no entanto, chamam mais atenção do que outras. Não espere versos rimados muito inspirados aqui, o conteúdo lírico não é comparável a nenhum Kendrick Lamar da vida e suas exposições do cotidiano sofrido de um subúrbio, se aproximando mais de uma autoajuda a partir de uma análise depreciativa do que qualquer outra coisa. Como o single Calm Down que tem um encaixado sintetizador em versos que pedem calma de uma forma bem simples até que Stevens surge com uma voz de consciência questionando o seu uso de drogas.

A interação entre os artistas é o grande valor da obra e o contraste entre a voz grave e direta do rapper com a famosa melancolia de Sufjan trazem momentos agradáveis, como a swingada Lion’s Share ou a curiosa My Oh My, crua na parte Hip Hop e totalmente Age of Adz em seu refrão. Este meio termo entre a música Eletrônica, Indie e Rap acaba agradando ouvintes que justamente se encontram neste ponto de intersecção mas que muitas vezes não se aprofundaram em nenhum dos estilos. Trazem a mesma sensação para quem escutou um Clint Eastwood pela primeira vez na vida e se viu cativado por rimas dentro de uma música com vozes tão agradáveis.

No entanto, o som aqui é ainda assim Experimental e algumas faixas não são tão digestivas, nem procuram ser, tentam se manter fincadas no que cada músico criou na vida. Logo, Sisyphus não perde a autoria em momento algum. Como o ótimo momento solo de Stevens, I Won’t Be Afraid, que transporta toda a sua linda melancolia para uma batida que cresce até se tornar Hip Hop, mas sem nenhuma rima de preenchimento. Temos a sensação em algumas faixas que o potencial ainda não foi totalmente explorado e que o elemento mais fraco do trio talvez seja Serengeti. Suas rimas não são tão boas assim e ele carece de um pouco de energia, algo que só acaba aparecendo na excelente Rhythm of Devotion.

Seu início é nervoso, rápido e transparece sentimento até que o ritmo vai caindo aos poucos até que o refrão cheio de ótimas batidas de Son Lux é cantado por Stevens. É a melhor música do disco e, em seus seis minutos, nos emostra que, mais que um projeto único, Sisyphus pode ser ainda mais grandioso com convites a outros rappers e músicos que possam contribuir com uma identidade sonora que vai se definindo logo de cara. Alcohol é outra faixa que bebe do Hip Hop atual com um lado mais soturno com batidas tribais, algo que já vimos no Young Fathers ou KA. Pesada e com finalmente boas letras rimadas, a canção chama mais uma vez a atenção do ouvinte em um disco que nos traz boas perpectivas.

Se algumas vezes não temos o melhor do Hip Hop aqui, podemos considerar a parte feita por Son Lux e suas ótimas batidas, penetrantes e hipnóticas e os arranjos de corda e voz de Stevens como excelentes. O encaixe com Serengeti é interessante em diversos momentos e, mesmo o rapper não sendo magistral em seu ofício, consegue passar bem a identidade do grupo em um trabalho que busca fazer orquestrações mais atuais ao gênero, mostrando-se bastante cru no Rap. A troca que os músicos fazem ao longo das músicas acaba agradando justamente o público Indie que não está necessariamente acostumado ao Hip Hop, mas que tem os ouvidos aguçados para elementos novos e diversos. Divertido, Sisyphus torna-se obrigatório para qualquer admirador de um dos “s” e mostra um imenso potencial para o futuro.

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BOM PARA QUEM OUVE: Cities Aviv, Ka, Young Fathers
ARTISTA: Sisyphus

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.