Resenhas

Snail Mail – Valentine

Em plena evolução, jovem artista revigora, com personalidade, a proposta da celebrada estreia

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Ano: 2021
Selo: Matador Records
# Faixas: 10
Estilos: Indie, Indie Rock
Duração: 31'
Produção: Brad Cook e Lindsey Jordan

É comum ouvir músicos contarem que seu primeiro álbum nasceu como uma coletânea de tudo o que já haviam composto ao longo da vida. O segundo lançamento é, portanto, a primeira vez que um compositor se dedica a parar tudo e escrever um disco propriamente dito. Essa narrativa é especial na carreira de Snail Mail, projeto da norte-americana Lindsey Jordan, que lançou sua obra de estreia, o excelente Lush (2018), aos 17 anos. Um próximo trabalho teria que dar conta de atender uma demanda de composições feitas por quem nem teve ainda a oportunidade de viver a vida adulta fora da música.

Valentine parece ter nascido da consciência de Lindsey sobre essa dinâmica. Se ela não teria tempo de sair e viver sua vida para acumular experiências e inspirações, melhor seria se fechar no quarto e investigar o que restou de seu passado que ainda não havia virado uma canção. E foi o que ela fez, entre 2019 e o 2020, iniciando o isolamento da pandemia antes mesmo dele ser uma necessidade. Na casa de sua família, no quarto que ela sempre chamou de seu, Snail Mail amadureceu à força para gerar um segundo álbum. E deu certo.

As 10 faixas que compõem o álbum se aproveitam da maturidade adquirida pela artista entre uma gravação e outra e também dessa intencionalidade de escrita, desse foco direcionado a superar o que foi feito em Lush. E a obra traz esse crescimento de maneira bastante evidente, em canções que sabem ir direto ao ponto quando precisam e também se distrair com pormenores quando possível – fruto também da maestria de seu coprodutor, o veterano Brad Cook (Bon Iver, Waxahatchee).

A sequência de abertura, como manda a cartilha da ordem de músicas no disco, resume muito do clima entre um Indie contemporâneo e um Indie Rock atemporal, da faixa-título que inicia Valentine à baladona “Headlock”, passando por “Ben Franklin” e seu clima de quem quer muito ser cool (e consegue). Ao longo do álbum, alguns sorrisos vêm fácil ao rosto, seja pela beleza de faixas como “Madonna” ou pelo drama bem construído de “Mia” (que encerra a obra com uma interpretação primorosa de Lindsey e instrumentos de cordas ao fundo).

Essas canções se destacam em meio a músicas mais convencionais dentro do que já conhecemos de Snail Mail em seu primeiro disco (como “Glory”), e a sensação após escutar o disco é que Valentine nos encanta pelo mesmo motivo de Lush: o fator surpresa de encontrar uma trabalho de tamanha qualidade feito por alguém que julgaríamos ainda não ter tido tempo de amadurecer, embora sua música argumente o contrário.

(Valentine em uma faixa: “Ben Franklin”)

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ARTISTA: Snail Mail

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.