Resenhas

The Raveonettes – Pe’Ahi

Novo disco da dupla dinamarquesa é marcado pela perda e pelas ondas do mar

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Ano: 2014
Selo: Beat Dies Records
# Faixas: 10
Estilos: Noise Pop, Indie Rock, Rock
Duração: 36:18min
Nota: 4.0
Produção: Justin Meldal-Johnsen

Quem conhece os discos lançados pela dupla Sune Rose Wagner e Sharin Foo, The Raveonettes, propriamente ditos, sabe que eles são fanáticos pelas grandes sonoridades. Os sujeitos encontraram uma forma de trazer algo da excelência da produção de gente como Phil Spector para o século 21, reempacotá-la e conseguir algo (quase) novo. Seria absolutamente inédito se os irmãos William e Jim Reid, os próprios Jesus And Mary Chain, não tivessem pensado nisso no início da década de 1980.

De qualquer forma, a falta de originalidade nunca chegou a comprometer a carreira de Raveonettes, pelo contrário. A dupla dinamarquesa sempre se assumiu retrô e, com uma tendência a soar minimalista, seus discos se caracterizam por vocais soterrados por microfonia de guitarras, poucos acordes e só. Quando essa estética apresentava sinais de desgaste, a dupla faz este movimento esperto e legal que é Pe’Ahi. O nome vem de uma localidade no norte da ilha havaiana de Maui, conhecida entre os surfistas como um lugar propício para o aparecimento de ondas gigantescas, as tais “tidal waves”, nas quais os adeptos das pranchas sonham em passar os instantes de fama. Além disso, devido à morte de seu pai, Sharin Foo rumou para o sul da Califórnia e lá absorveu todo o clima do lugar. Junto ao conceito da praia, das marés e a perda do pai da vocalista, veio uma ideia simples, porém decisiva: aumentar o escopo musical, juntar novos instrumentos, novos efeitos e fazer um álbum diferente. Dito e feito, com a ajuda do baixista e produtor Justin Meldal-Johnsen, com folha de serviços prestados a gente legal como Beck, Chromeo, Garbage e M83, entre outros.

Continuam as guitarras saturadas de pedais fuzz, permanecem os vocais subliminares, mas, o início de Endless Sleeper, a faixa de abertura de Pe’Ahi (sobre a quase morte de Sharin por afogamento em 2008), traz uma bateria de aro em formato de Bossa Nova que lembra discretamente a introdução de Break On Through, do primeiro disco de The Doors. A impressão dura pouco mais que um segundo, pois efeitos de baixo, teclado e guitarras surgem para envolvimento total do ouvinte enquanto a voz de Sharin surge como mais um som em meio ao todo. Aos poucos, ela toma seu lugar de destaque mas ainda permanece sob a muralha musical. A faixa seguinte, Sisters, é propulsionada por vozes processadas e teclados, gerando um efeito de melodia retrô, turbinada por guitarradas que se desfazem em algo praiano, ao por do sol. Pouco depois, o bloco sonoro retorna trazendo tudo ao mesmo tempo.

Killer In The Streets surpreende com uma batida quase Hip-Hop, andamento guitarrístico normal e voz noventista de Sharin, como se fosse líder de uma daquelas várias bandas de meninas nos vocais. Z Boys também segue num clima noventista enquanto A Hell Below envereda para um pequeno flerte com o Pop mais radiofônico. The Rains Of May é, talvez, a única canção que pode ser considerada “praiana”, mas adequada para passeios junto às ondas quando o sol já se pos no horizonte. Mais batidas de Hip Hop pipocam na introdução de Kill, música sobre a difícil relação da cantora com seu pai recém-falecido, desembocando na misteriosa When Night Is Almost Done, espectral mas familiar ao mesmo tempo. O fecho apropriado vem com a grandiosa Summer Ends, com guitarras e dinâmica solenes.

Este sétimo álbum da dupla pode significar uma mudança na direção sonora, uma abertura para um universo mais amplo ou, quem sabe, é apenas uma fotografia musical de um momento bem específico. É possível, porém, comprovar que os tempos recentes e difíceis experimentados por Sune e Sharin contribuíram para seu trabalho ganhar mais corpo e versatilidade. Pe’Ahi só não ultrapassa o frescor adolescente pervertido da estreia, The Chain Gang Of Love, de 2003.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.