Resenhas

Urias – Fúria

Disco de estreia da artista reafirma a incrível força de sua narrativa e ao mesmo tempo traz novas referências para sua sonoridade explosiva

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Ano: 2022
Selo: Mataderos
# Faixas: 13
Estilos: Trap, Reggaeton, Grime
Duração: 30'
Produção: Urias, Zebu, Maffalda, Gorky, Turbotito

O ano era 2019 e a sofrência dominava as paradas musicais e os streamings. Uma espécie de melancolia millennial tomava conta dos lançamentos, aliada às boas e velhas canções de corações partidos – que, de uma forma ou outra, sempre parecem estar no imaginário coletivo da música brasileira. Artistas como Marília Mendonça, Maiara e Maraísa e Matheus & Kauan foram responsáveis por manter em alta o sentimento de se divertir a partir das nossas dores. Algo como um desdobramento do mood “Dancing On My Own” que Robyn perpetuou desde o começo da década de 2010. Mas não apenas esta sofrência amorosa despontou dentro do cenário nacional – a raiva também conquistou o seu espaço. Ou melhor, ordenou. A responsável por trazer este dilúvio à tona foi Urias e seu EP de estreia – um marco na música brasileira contemporânea, mas também de sua história pessoal

Em meio à onda de sofreguidão, este primeiro EP mostrou que Urias era uma artista intensa em todas suas propostas criativas. Suas músicas evidenciaram que é possível utilizar a raiva como mais do que uma simples forma de escape ou de refúgio momentâneo, mas como instrumento de luta e combate. Quando Urias pega o microfone, não há outro caminho possível que não escutá-la. A produção afiada de Maffalda, Gorky e Zebu (parte da Brabo Music) foi precisa no que diz respeito à tradução dos sentimentos intensos de Urias em sonoridades gritantes, graves e intensas. Seus clipes para “Diaba” e “Rasga” são representações visuais do grande baque que é escutar sua arte, caos e catarse. Desde então, Urias apenas provou para si e o mundo que seu universo criativo está imerso nessa vivência e o caminho até chegar aqui é repleto de percalços que apenas deixam ela mais forte. Olhando tudo isso em retrospecto, as coisas culminam para o momento atual – no qual ela nomeia seu disco de estreia de Fúria.

Esse é um daqueles discos chamados de estreia apenas por ser o primeiro em sua discografia – afinal, de “amadora” Urias não tem nada. Encontramos a artista em um momento diferente do primeiro EP de 2019, ainda que conserve muitas características daquele momento. Há aquela raiva primordial, que agora se transforma em fúria, num reflexo direto em sua sonoridade. Não que as canções estejam apenas mais pesadas e distorcidas, mas a variedade de gêneros presentes demonstra que a intensidade de Urias se expressa de diferentes formas tonalidades. O trap ainda ganha grande destaque, mas há momentos em que o reggaeton e a psicodelia contemporânea se juntam ao peso dos graves para trazer uma paleta de cores ainda mais rica. Todos os tons aqui, por mais diversos que sejam, são autênticos, provenientes de Urias e expressos de forma visceral.

Para nos apresentar de forma apropriada, Urias compõe todo um cenário dramático que pede uma faixa introdutória envolta de ar cinematográfica. A artista nos adverte do que vem a seguir: (traduzido) “Eu estou prestes a me tornar uma pessoa horrível, apesar de nunca ter me sentido boa”. O grave distorcido dá o pontapé inicial – ou melhor, o murro inicial – na dilacerante “Pode Mandar”, parceria com Vírus que continua a revelar ao ouvinte a personalidade grandiosa de Urias – “Eu quero tudo e eu quero agora”. O single “Foi Mal” talvez seja o maior representante dos novos rumos sonoros que ela introduz no registro, em uma inegável referência a Tame Impala – tanto na psicodelia quanto na letra ácida e romântica. Em um momento mais introspectivo, Urias se une a Hodari em um dueto quente que traz impresso no título da canção a intenção irreverente e o desapego a qualquer pudor: “Explícito”. “Peligrosa”, por sua vez, é um momento em que a artista mostra de que maneira ela distorce o reggaeton com naturalidade e precisão – fundindo-o a uma batida drum ‘N bass cortante. Por fim, “Tanto Faz” encerra o disco em jogo traiçoeiro – um momento em que achamos que iríamos ouvir uma faixa lenta e de alívio da fúria, mas que ao longo da faixa se mostra tão (ou mais) intensa quanto todas apresentadas até aqui.

Urias nos mostra com Fúria que sua raiva não é gratuita ou vazia, muito pelo contrário: ela a desenvolve, com maestria, na medida em que suas diferentes referências emergem. Podem parecer opostos, mas o interior e o exterior de Urias estão intrinsecamente misturados. A frase que pontua e representa o registro de forma plena vem da explosiva “Peligrosa”: “Silenciosa como uma bomba”.

(Fúria em uma faixa: “Peligrosa”)

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ARTISTA: Urias

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.