Resenhas

AlunaGeorge – I Remember

Dupla inglesa revela qualidade, mas peca nas composições

1,585 total views, no views today

Ano: 2016
Selo: Island
# Faixas: 12
Estilos: UK Garage, Eletrônico, Synthpop
Duração: 43:54
Nota: 3.0
Produção: George Reid

Se tudo der certo e o mundo se transformar num lugar mais justo, AlunaGeorge terá a mesma fama, poder e influência que Beyoncé e Rihanna, porque, qualidade, amigos, a dupla tem em quantidade muito superior a essas megablasterstars do Pop. A música produzida aqui, mérito do sempre bom George Reid, é de origem noturna e cheia de DNA do chamado UK Garage, aquele estilo que se insinuou pelos clubes e casas noturnas da Velha Ilha na virada do século e originou vários híbridos ao longo dos anos 00, especialmente o Dubstep e o Bassline, frutos da junção de House e ritmos mais noventistas com boas doses de Hip Hop. Alguns malandrões o batizaram como Brit Hop. O fato é que a música produzida pela dupla segue esta evolução de música negra moderníssima feita pra dançar, calcada nos efeitos e malabarismos no estúdio, bem como nas colaborações. Neste bom I Remember há um monte de gente contribuindo para um resultado que seria sensacional se não fosse por um detalhe. Faltam boas canções.

O fato é que este álbum é feito para ser ouvido, apreciado e entendido como fornecedor de canções para serem tocadas no chamado plano público da vida. Explico: é música para ouvir fora de casa, que não pede por alguma identificação além do ritmo e das batidas, sendo feita exclusivamente para dançar na boate. Isso é bom mas deixa de lado um bom potencial que Aluna Francis poderia aproveitar, uma vez que ela é dona de uma das mais interessantes vozes da música Pop atual, justo porque abre mão dos malabarismos vocais estéreis que o mundo julgou achar corretos e emblemáticos. Aqui não tem gritaria, pelo contrário.

Como este é um álbum que tem gênese de trabalho independente, ao contrário dos blockbusters do mainstream, há espaço para alguma experimentação e ousadia. Ela surge sempre do uso de bons timbres e batidas por parte de George, aproveitando a versatilidade da voz de Aluna, conseguindo bons resultados. O primeiro single, I’m In Control, com participação do rapper Popcaan, é um achado, mas teria muito mais poder de fogo se tivesse um arranjo mais amplo, aproveitando o vocal toast no meio da canção. Tudo fica meio baixo, meio à meia luz, algo que não funciona totalmente aqui. Por outro lado, é uma canção que não se presta ao entendimento mais óbvio, desafiando algumas interpretações. Efeito parecido surge em Hold Your Head High, na qual a abordagem de Eletrônica pega emprestadas sonoridades do R&B noventista, mas as coloca sutilmente no painel musical obtido. Mesmo assim, ambas são canções pouco inspiradas.

Os arranjos de George também poderiam ser mais criativos e ousados, talvez através do uso de influências que ultrapassem o limite de meados dos anos 1990, que parece ser o seu único ponto de partida estético, que prejudica o resultado final. Exemplos disso surgem em Full Swing, My Blood e na semi-balada Not About Love, que desperdiçam a boa voz de Aluna em pequenas e burocráticas molduras sonoras. Exceção a esta lógica de composições sem inspiração é a excelente Mean What I Mean, com participação de Leikeli47 e Dreezy, que traz uma batida dançante e que poderia ter algum parentesco com ritmos latinos moderninhos, tornando tudo meio tropical e com jeito de cocktails coloridos na beira da piscina.

Adoraria dar cotação maior a este álbum, mas, repito, a música Pop (e qualquer outro gênero, é verdade) se constrói com boas canções e a dupla deixou a desejar nesse quesito. São talentosos e promissores ao extremo e ficamos na torcida pelo próximo trabalho, que este detalhe seja contornado e tenhamos a explosão de amor que queremos dedicar especialmente a Aluna Francis. Por enquanto, não rola.

(I Remember em uma música: Mean What I Mean)

1,586 total views, 1 views today

BOM PARA QUEM OUVE: Ibeyi, CHVRCHES, Disclosure
ARTISTA: AlunaGeorge

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.