Resenhas

Ariel Pink – pom pom

Novo disco do músico traz um retrato excelente e fiel de um delírio lisérgico

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Ano: 2014
Selo: 4AD
# Faixas: 17
Estilos: Lo-FI, Neo Psicodélico, Synthwave
Duração: 66:54
Nota: 4.5
Produção: Ariel Pink
Itunes: https://itunes.apple.com/br/album/pom-pom/id916076704?uo=4
Livraria Cultura: http://www.livrariacultura.com.br/p/pom-pom-37023493

Ser músico é, também, ser um louco. O árduo caminho de traduzir seus sentimentos e impressões em uma linguagem completamente universal e as compilar em um disco para, posteriormente, mostrar a ouvintes e entusiastas requer um pouco de insanidade. Uma loucura que pode ser aprendida, mas que, quando inata ao indivíduo, normalmente funciona como uma superfície aderente por onde suas expressões deslizam facilmente até nossos ouvidos. Nós, os ouvintes, também precisamos internalizar esta insanidade quando escutamos um registro advindo de uma fonte alucinante, como o primeiro disco de Neon Indian ou a épica opera-lisérgica de The Flaming Lips Yoshimi Battles The Pink Robots. Mas nada, absolutamente nada, nos preparou para pom pom.

O nome de Ariel Pink trouxe ao disco um peso grande e uma ansiedade por seu lançamento quando foi anunciado lá no começo de setembro. Sendo considerado por alguns veículo, um dos nomes mais importantes da música do século 21, a espera certamente valeria a pena, afinal, o músico nos consagrou com ótimos discos no passado como Before Today, de 2010, e Mature Themes, seu último lançamento antes de pom pom. Entretanto, toda a loucura conhecida de Ariel ficou pequena quando os primeiros acordes Pop Anos 60 foram entoados na faixa de abertura Plastic Raincoats In The Big Parade e o delírio mais fantástico do compositor começou.

Um das facetas mais extraordinárias deste disco é como, durante as 17 músicas, ouvimos um gênero diferente do outro e não nos incomodamos por uma falta de união estética. Na verdade, o disco ganha sua unidade na pós-produção quando a mixagem e engenharia de som dão a pom pom um ar Lo-Fi que faz com que possamos entender que todas as músicas fazem parte de um mesmo mundo: o alienante e fantástico mundo de Ariel Pink. Mesmo dentro de uma mesma música, ouvimos dois ou mais gêneros se fundindo em uma aleatoriedade divertida e, ao mesmo tempo, assustadora. Dinosaur Carebears é a que mais diz respeito a esta caracterísitca.

Mas, mesmo com uma mesma mixagem, o disco ainda poderia trazer certo desconforto por se tratar de um registro com muitas abordagens diferentes. Porém, o que vemos, são as interpretações de Ariel Pink sobre estes estilos musicais, quase sempre feitas de forma caricata e esteriotipada, quase como uma sátira moderna. Negative Ed alucina com um Rock dos anos 80 envoltos de gritos histéricos, White Freckles remete a uma estrutura mais Pop só que com uma batida bem mais rápida e frenética, já Jell-O mostra uma espécie de propaganda de gelatina dos anos 60 com solos de guitarra e mensagens subliminares.

Parte da genialidade de Ariel advém de seus experimentos, principalmente no que diz respeito nas linhas de sintetizador, o instrumento favorito do músico. Na verdade, as estruturas são bem simples, mas a escolha dos timbres é precisa e contribui muito para a formação deste ar psicodélico e lisérgico de pom pom, algo parecido com o que escutamos no primeiro disco de Neon Indian. Além disso, cada música conta uma história tão sincera, que foram colocadas vozes de personagens para ambientar o ouvinte completamente, como ouvimos em Black Ballerina.

Após pouco mais de uma hora de uma alucinação completa, temos em nossa mente a sensação de um alívio por tudo isso ter passado. Mas, para termos ficado desorientados e com medo a este ponto, é porque estamos diante de um disco extremamente bem construído e com uma proposta direta que nos intriga a cada vez que ousamos voltar à insanidade de Ariel.

Um vortex em que não existe noção de tempo. Um LSD sonoro e até mais potente.

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.