Resenhas

Baths – Pop Music/False B-Sides II

Novo disco de Will Wiesenfeld ressignifica demos antigas a partir de novas experiências e o resultado é introspectivo, sensível e acalentador

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Ano: 2020
Selo: Basement's Basement
# Faixas: 12
Estilos: Pop, Glitch Hop, Ambient
Duração: 37'
Produção: Will Wiesenfeld

Frente à movimentação política e às incertezas de uma pandemia mundial, o isolamento pode não ser o momento mais salubre para reflexões, exigindo certo cuidado para não ser romantizado (como um livro de Augusto Cury), pela ideia de que, supostamente, temos “tempo livre para botar os pensamentos em ordem”. Mas, independentemente disso, acabamos refletindo muito sobre nós mesmos.

Neste contexto também está inserido o produtor e compositor Will Wiesenfeld, conhecido por trabalhar sob diversos nomes como Post-Foetus, Geotic e, talvez seu projeto mais conhecido, Baths. Nome ambicioso da música eletrônica germinada na década de 2010, Will trouxe uma sonoridade ímpar, combinando elementos da música eletrônica com interferências glitch, referências de videogame e uma sensação de escapismo espiritual em seus arranjos. Escutar um registro de Will é lançar-se sobre a incerteza.

Há muito ecletismo em sua obra, mas também muita coesão na forma como constrói cada disco tal qual um universo fantástico. Como se fosse um grande mundo de RPG em que Will é o mestre do jogo delimitando e organizando as regras deste universo – para que nós possamos explorá-lo extasiados. Mas Will é, inevitavelmente, humano e sobre ele o peso da pandemia também é forte. A forma que o produtor escolhe para lidar com o caos mundial parte justamente daquilo a que a pandemia nos força: refletir.

Will reflete sobre sua própria vida e sobre sua obra. Pop Music/False B-Sides II é uma espécie de sucessor de um registro originalmente lançado em 2011, como um disco disponível apenas para quem fosse aos shows de Baths – na época, um nome ainda em revelação (este, inclusive, ganhou uma remasterização lançada concomitante ao registro resenhado). O álbum lançado agora reúne demos revisitadas e retrabalhadas, descartadas de outros discos de Baths, como sua estreia em Cerulean (2010) e Obsidian (2013). Entretanto, encarar Pop Music… como um “disco de sobras” é uma injustiça tremenda.

O trabalho que Will teve em achar essas demos perdidas em HDs externos e, posteriormente, dar prosseguimento à produção estagnada destes anos passados, revela uma sensível relação dele  com sua obra. É um processo interessante em que fragmentos de seu passado são ressignificados à luz de novas experiências. Por assim dizer, Will acaba criando um diálogo entre seu eu do passado e do presente, em uma relação atemporal e multidimensional. Essa característica quase mágica é algo que fica evidente na sua sonoridade, como se Baths fosse a manifestação física do aspecto fantástico dessa conversa.

Como Pop Music… surge de uma interação de momentos diferentes da obra de Will, é apenas lógico que estes episódios estejam permeados na sonoridade do disco. Há momentos em que se instaura uma aura mais etérea e reflexiva, fruto de uma formação musical no piano clássico, que permite ao compositor montar acordes profundos (típico de seu outro projeto Geotic). Em outras canções, ganha espaço um talento próprio de Baths: construir batidas com menos obviedade, nem sempre respeitando os compassos 4/4 típicos da música eletrônica. Nesse registro, também há espaço para barulhos esquisitos entre os belos acordes, dando uma impressão de interferência da memória com cortes bruscos (algo muito presente em seu disco Obsidian).

O disco inicia com os tons claros e mansos de “Immerse”, de linhas melódicas características de Will em um tom misterioso e até xamânico. Já “Mikaela Corridor” investe no lado mais quebradiço de Baths, acelerada e repleta de glitches. “Stomach Tile” é quase uma música de Math Rock, construída na fragilidade das baterias quebradiças e harmonias ensolaradas. O single “Wistful (Fata Morgana)” traz um elemento mais psicodélico, com a construção de ecos mais inusitados e uma batida bate-estaca constante. “Lung Tile”, por sua vez, é mais inconsistente, desorientando-nos pela percussão desenfreada, mas nos mantendo conectados pelos sintetizadores aéreos. “The Stones” encerra o disco na canção mais longa do registro, grave e séria, atribuindo um peso imensurável ao fechamento da obra.

Baths não tem a pretensão de ensinar ninguém como atravessar a pandemia com a saúde mental intacta. Mas refletindo sobre si mesmo, ao mesmo tempo em que dialoga com diversos momentos de sua obra, é que Will nos inspira, de uma forma ou outra. Em um tom extremamente sensível e introspectivo, Pop Music… revisita diferentes momentos do passado em prol de um futuro menos turvo. E consegue fazer o impensável: nos dar tempo para pensar.

(Pop Music/False B-Sides II em uma faixa: “The Stones”)

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ARTISTA: Baths

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.