Resenhas

Blake Mills – Mutable Set

Quarto disco do renomado produtor americano aprofunda a investigação emocional com canções fortes e densas

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Selo: A New Deal Records/Verve Records
# Faixas: 11
Estilos: Folk, Indie, Chamber Pop
Duração: 51'
Produção: Blake Mills

O nome de Blake Mills, à primeira vista, pode soar como um artista em ascensão ou um talento em potencial. Entretanto, a realidade não poderia ser mais diferente. Com pouco mais de 30 anos, o americano tem trilhado um caminho de produção e composição musical poderoso. Alguns críticos o descrevem como uma espécie de xamã, por conta dos vários artistas que procuram sua sabedoria para compor seus respectivos discos. A lista é longa e admirável.

Blake co-assina a produção de trabalhos com Alabama Shakes, Perfume Genius, Laura Marling, John Legend e Fiona Apple. Apesar de, em 2016, não ter levado o Grammy de Produtor do Ano, seu currículo é um documento incontestável de excelência. Mais do que isso: é uma amostra de sua sensibilidade quando o assunto é a produção de obras que mexem verdadeiramente com nossos corações. Parece que a expertise de Blake Mills reside na pesquisa de sonoridades que privilegiem uma investigação sentimental intensa – e o resultado é quase sempre um disco-universo contemplativo.

Todo o conhecimento e habilidade com o manuseio musical que evoca emoção também é direcionado para a auto investigação. Ainda quebrando a noção de que Blake é um artista novato, chegamos a seu quarto disco solo. Aqui, ele combina o diálogo com outros artistas que lhe confiaram a tarefa, a uma forma de autoanálise, ressoando momentos tocantes de discos do passado, como o nostálgico Break Mirrors, de 2009. Assim, Mutable Set é mais uma evidência do cálculo cirúrgico com o qual Blake orquestra diversos elementos em prol de uma narrativa marcante, não-linear e que nos engole como uma ressaca violenta do mar.  

Pode ser que o ouvinte fique tentado a enquadrar sua sonoridade como um singer-songwriter típico, principalmente quando observadas as referências Folk. Entretanto, sua persona de produtor não consegue deixar apenas um violão comunicar tudo aquilo que ele sente. A forma como as composições são preenchidas e, ao mesmo tempo, nos parecem tão vazias, é ofício muito característico de seus arranjos. Reparamos primariamente em dedilhados de violão e acordes quentes do piano, além da voz frágil do artista. Mas, com mais atenção, percebemos que não estamos só neste universo que Blake Mills construiu para nós.

Texturas tímidas de sintetizador, barulhos silenciosos e grandiosos, quartetos de corda melancólicos são alguns dos elementos que nos acompanham durante o disco. É uma estratégia que diz respeito à forma como Blake encara as emoções que encontra em seu caminho. Simples e aparentemente fáceis de serem ligadas, a princípio. Mas, à medida que investigamos, revelam-se nuances frágeis e complexas. Há muito com o que lidar nestas canções e também muito o que admirar.

“Never Forever” abre o disco com um emaranhado de sons monofônicos fundidos em uma espécie de transe e que se misturam com o violão de aço pontual, nos acolhendo para a jornada que Blake nos preparou. “Eat My Dust” coloca um tempero Fleet Foxes na jornada, quase como um verso trovadoresco, acompanhado de percussões medievais e um piano jazzístico. “Summer All Over” traz um timbre de piano percussivo frágil e que só faz sentido, porque, em meio a suas ressonâncias, há uma dose precisa de silêncio. Já “Farsickness” nos arrebata com as primeiras notas de um contrabaixo vibrante, apenas para terminar completamente conosco à medida que a emocionante melodia toma conta do restante da música. “Off Grid” encerra o trabalho sem encerrá-lo propriamente, dando um tom de tensão, como se deixasse um fio solto para retomar sua investigação mais tarde.

Mutable Set mostra um pouco mais do grande talento de Blake Mills, mas se aprofunda na intensidade emocional já conhecida. É um disco que requer algo como coragem do ouvinte, suscitando uma investigação sensível tão densa quanto a que o compositor americano faz consigo. Não há a pretensão de dar um fim aos assuntos abordados. Trata-se mais de reconhecer a importância singular de cada evento representado em cada música. Um grande nó de sentimentos e não nos cabe desfazê-lo, mas, sim, acompanhar seus movimentos e direções.

(Mutable Set em uma faixa: “Off Grid”)

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ARTISTA: Blake Mills

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.