Resenhas

Bob Dylan – Rough and Rowdy Ways

Em seu 39º disco, o lendário músico condensa atributos de mais de cinco décadas de carreira e tenta domar a mortalidade por meio da arte

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Ano: 2020
Selo: Columbia/Sony
# Faixas: 10
Estilos: Blues, Folk, Americana
Duração: 70'

Há uma indicação de temporalidade já no primeiro verso de cinco das dez músicas de Rough and Rowdy Ways. São palavras que se referem a dias, meses ou mesmo estações do ano. Se talvez isso expresse apenas uma platitude (ou aspereza) na leitura de quem, ao olhar para Bob Dylan, vê em primeira instância seus 79 anos de vida, é difícil pensar em coincidência, quando o artista – uma verdadeira potência criativa, ganhador do Nobel de Literatura e uma das figuras mais influentes da música nos últimos 50 anos – escolheu essas palavras para apresentar a poesia de seu 39º disco.

O leitor poderia apontar essa observação por um leve preconceito com a terceira idade de Dylan, não fosse o tema da mortalidade tão presente no disco. Para muito além das já mencionadas pequenas dicas da percepção do passar do tempo, o autor traz o assunto de forma explícita em vários momentos, como se fizesse questão de exibir a vitalidade que sua arte possui e, com isso, justificar entrar no estúdio mais uma vez.

Com essa postura do artista em mente, é interessante notar como Rough and Rowdy Ways exercita muito bem outra inevitabilidade não só dos anos de vida acumulados, mas também de uma mente criativamente inquieta: Dylan estabelece diálogo entre os mais diversos elementos de seu repertório lírico-existencial, mencionando de Rolling Stones e Beatles a figuras históricas, como Júlio César, além de passar por referências a filósofos, poetas e teólogos (três áreas das humanidades das quais a intersecção parece germinar sua música).

Logo na faixa de abertura, “I Contain Multitudes”, ele explicita a referência ao poema “Song of Myself, 51”, do também norte-americano Walt Whitman (“Do I contradict myself?/Very well then I contradict myself/(I am large, I contain multitudes”), cujo verso mais famoso serve como uma espécie de refrão ao final de cada estrofe. A mesma canção traz alusões a William Shakespeare, Edgar Allan Poe e a algumas outras composições de Dylan ao longo das décadas. E sua maior maestria não está na maneira com que ele organiza essas referências, mas em como ele faz música boa para quem também não conhece, ou reconhece, as fontes de suas inspirações.

No maior estilo com que sempre trabalhou, o músico traz um tom jocoso –  aquele jeito malandro quase arquetípico, de jaqueta de couro e cigarrinho – para as músicas, mesmo com temas tão graves como a morte. É assim em “My Own Version of You”, com uma cadência quase debochada nas sílabas, ou na guitarra que o acompanha em “Goodbye Jimmy Reed”. São recursos que não suavizam os temas, mas conquistam o ouvinte ao oferecer um alívio familiar que não permite que a audição de Rough and Rowdy Ways seja, de forma alguma, difícil.

Com mais de uma hora de duração distribuída em apenas dez faixas (a última, “Murder Most Foul”, com seus quase 17 minutos, chega em um segundo disco), o álbum oferece grande variedade musical de uma faixa a outra. O Blues Rock aparece em grande forma algumas vezes (“Crossing the Rubicon” e “False Prophet” são dois exemplos), aquele R&B raiz faz com que “I’ve Made Up My Mind to Give Myself to You” seja um dos momentos mais bonitos do repertório e o Folk que Dylan ajudou a fincar no repertório popular, é claro, coroa o disco na emblemática sequência final (“Key West (Philosopher Pirate)” e “Murder Most Foul”).

Trazer aquilo que se espera de Bob Dylan para o álbum, portanto, é ter suas expectativas contempladas. Independentemente do quanto você conhece sua discografia a fundo, logo reconhece marcas inconfundíveis: os timbres clássicos dos estilos musicais norte-americanos do século 20 com os quais ele sempre trabalhou; aquela lírica afiada (digna de Nobel) e a temática desenvolvida a partir do olhar transcendental com o qual o trocador observa o mundo, a cultura e, por consequência, a passagem do tempo.

Rough and Rowdy Ways faz aquilo que tantas outras obras e artistas (de qualquer idade) se propuseram a fazer desde virtualmente sempre: domar a mortalidade por meio da arte. Entre versos sobre encarar a morte e mandá-la embora (em “Black Rider”), buscar a imortalidade em outros ares (“Key West”) ou perceber a quantidade de areia que já caiu na ampulheta da vida (“I’ve seen the sunrise, I’ve seen the dawn”, em “I’ve Made Up My Mind…”), versos de “Mother of Muses”, uma canção metalinguística que revela como Dylan percebe sua arte, ecoam para além da audição do álbum: “I’ve already outlived my life by far”.

(Rough and Rowdy Ways em uma faixa: “I Contain Multitudes”)

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ARTISTA: Bob Dylan

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.