Brockhampton – iridescence

Coletivo aposta – e acerta – em disco emotivo e variado em suas referências

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Ano: 2018
Selo: Question Everything Inc./RCA/Sony
# Faixas: 15
Estilos: Hip Hop, Hip Hop Alternativo, R&B
Duração: 48'
Nota: 4.5
Produção: Brockhampton

“Iridescência” é aquele brilho colorido que observamos em uma bolha de sabão, ou mesmo no arco-íris, algo percebido de maneira diferente por cada ângulo que é visto. Ao batizar seu álbum de iridescence, o coletivo Brockhampton já dava duas pistas sobre o que encontraríamos em suas próximas 15 faixas. A primeira é a variedade natural encontrada em uma obra feita por catorze pessoas. A outra é o referencial Queer que parece nortear todo o lançamento.

Para muito além de sexualidade, iridescence trata o desconforto de não se enquadrar em uma sociedade ou grupo social. É o fazer música como meio para lidar com esse estado de estranheza, algo que se estende até para dentro do grupo (“I been feeling defeated, like I’m the worst in the boy band”, canta Kevin Abstract em WEIGHT). Essa mensagem é trazida ao ouvinte com a força que os graves e as batidas do Hip Hop são mestres em transmitir, aliados a uma sensibilidade latente em cada música.

É uma quebra de expectativas com quem conheceu Brockhampton em sua fase Saturation, com as brincadeiras sobre ser uma boy band e todo um senso de humor espertinho em torno de seus versos. Gravado no lendário Abbey Road, em Londres, o grupo norte-americano se isolou por dez dias para misturar o peso sonoro Eletrônico de faixas como WHERE THE CASH AT com os timbres de violão e piano de SAN MARCOS e seu refrão “I want more out of life than this/I want more, I want more” cantado por muitas vozes. Em uma era de playlists, na qual estamos acostumados a pular de um humor para o outro em poucos segundos, iridescence não teme juntar em um só repertório um referencial Pop emotivo (THUG LIFE) com o R&B contemporâneo e autotunado de nomes como Frank Ocean (SOMETHING ABOUT HIM).

Dessa forma, o álbum funciona como um prisma que reflete suas “cores musicais” tão diferentes, mas todas no mesmo feixo do incômodo social. Versos como “I want a better life” saltam aos ouvidos em meio ao Rap acelerado de faixas como DISTRICT e reforçam o potencial que o Hip Hop – hoje em um de seus melhores momentos – possui para comunicar essa voz marginalizada, seja por questões racistas ou mesmo por ser diferente dos padrões (Queer).

Sabendo se aproveitar do vocabulário musical desse gênero, Brockhampton constrói uma obra que tem tudo para servir de referencial para uma nova geração não só de rappers, mas também de fãs do Hip Hop, que se sentirão representados por um disco sem nenhuma música mais fraca, que ganha mais e mais força à maneira que a audição progride. E sua variedade natural, com faixas para humores múltiplos, garante que iridescence sempre encontre alguma relevância para quem o ouve e acha nele um lugar seguro para também ser sinceramente diferente.

(iridescence em uma música: WEIGHT)

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BOM PARA QUEM OUVE: Saba, Frank Ocean, Kanye West
ARTISTA: Brockhampton

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.