Resenhas

Cícero – Cosmo

Em seu quinto álbum, compositor carioca é sutil ao falar do universo e imenso ao tratar do coração

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Ano: 2020
Selo: Independente
# Faixas: 10
Estilos: MPB, Indie
Duração: 30'

Talvez a arte tenha como missão a tentativa de encapsular o que não se pode medir dentro das dimensões de uma composição – musical, plástica, cênica ou qualquer que seja o suporte. O artista transita entre o natural e o etéreo, o concreto e o subjetivo, para retratar, ou construir, uma dada realidade que visitamos na duração de sua obra. Cícero faz isso em Cosmo já a partir de sua capa, que enquadra o céu estrelado noturno duas vezes – há o recorte selecionado do espaço, com suas constelações e suas lacunas sem luz, e as linhas que formam um retângulo no centro do quadro. E muito do disco está presente nesses símbolos: o todo e suas partes, espaços não preenchidos e o deslumbramento curioso do homem diante daquilo que não tem tamanho.

“Falso Azul”, abertura e primeiro videoclipe do projeto, inicia esta nova fase do cantor e compositor carioca trazendo timbres que já conhecemos de outros momentos de sua discografia. A disposição dos sons na faixa, porém, traz uma espacialidade inédita em sua obra – há certos paralelos com Sábado (2013), só que aqui o som não se inibe de crescer, como naquele álbum quase silencioso. A maneira com que o teclado ocupa o campo sonoro de um lado, a guitarra em outro e as vozes aparecem sugere uma aparência que há muito tempo não se via em Cícero: a do disco feito em casa.

Várias faixas têm esse quê de trabalho de produtor, de alguém que passou tempo pesquisando sons e à procura da melhor maneira de organizá-los em uma composição, tudo dentro daquele DIY que bem conhecemos. Foi o que ele fez em Canções de Apartamento (2011), mas agora isso se desenvolve em uma estética atualizada para esta virada de década. Enquanto seu álbum de estreia trazia a perspectiva de quem estava enfurnado em casa digerindo experiências, Cosmo parece ser o retorno ao lar de quem adquiriu novos questionamentos lá fora e está pronto para novas reflexões.

Não é difícil enxergar traços de sua discografia ao longo das dez faixas do disco. Além do som espaçado e até discreto em algumas faixas (Sábado) e toda a introspecção emocional da fase Apartamento, o novo álbum tem seus momentos maiores para serem tocados com banda (“Às Luzes”, “Some Lazy Days”), como os de Cícero & Albatroz (2017), e todo um clima mais equilibrado em suas características, assim como fez em A Praia (2015). O último talvez seja aquele que mais se aproxime de Cosmo, visto que os dois marcam suas identidades mais pela moderação de suas partes do que por um grande conceito absoluto que dê cara ao disco.

Isso porque, assim como seu título sugere, o álbum acolhe muitas realidades diferentes. Há cenas cotidianas narradas com ajuda de figuras de linguagem grandiosas (como em “Esquinas”), tem hora para sorrir com um romantismo leve (na já mencionada “Some Lazy Days”) e também uma música de estrutura livre e dinâmica irregular (“Marinheiro Astronauta”, outro momento bastante atípico em sua carreira). O que as costura é, além da voz de Cícero, o clima introspectivo e reflexivo – o mesmo que surge a partir de sua capa.

Depois da intensa e melancólica “Miradouro Nova Esperança”, a bela “O Que Ficou” repete alguns dos temas já presentes no álbum (a ave e o céu, a onda e o mar) em uma percussão sincopada. Se a primeira sustenta um som preenchido de orelha a orelha, sua sequência aproveita o andamento fragmentado para evidenciar mais os detalhes, como a melodia que se acomoda nos timbres de piano.

Antes de acabar, o disco traz três faixas que podem entrar para a história como os nove minutos mais bonitos da carreira de Cícero: “A Chuva” observa a passagem inevitável do tempo, “Banzo” abafa as guitarras para comentar as transformações que a vida sofre e “Nada ao Redor” mostra o artista em seu momento mais existencialista, acompanhado por teclado, falsetes e a espacialidade sempre crescente no último minuto da faixa. Por conta disso, Cosmo se encerra maior do que começa, mas ainda mais introspectivo.

Tem a ver com a própria trajetória do artista, que parece ter se firmado – para além de cantor, instrumentista, produtor ou qualquer função que ele já tenha desempenhado – de uma vez por todas como compositor. Mais ainda do que antes, Cícero se mostra um poeta que sabe observar as relações metonímicas ao seu redor e usá-las na descrição do tal essencial invisível aos olhos. Ele é sutil ao falar do universo e imenso ao tratar do coração. Com uma discografia marcada pela sensibilidade, o artista chega ao quinto álbum em seu momento mais humano, curioso e intrigado com o que acontece nos universos, seja o físico ou o interior.

Cosmo em uma faixa: “O Que Ficou”

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ARTISTA: Cícero

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.