Resenhas

Cícero – Sábado

Em seu segundo álbum, o músico carioca se desprende da estética proposta em seu primeiro disco de grande sucesso, “Canções de Apartamento”

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Ano: 2013
Selo: Deck
# Faixas: 10
Estilos: MPB, Indie Rock
Duração: 29:31
Nota: 3.0
Produção: Bruno Giorgi

Mais do que uma renovação ou uma quebra na fórmula de sucesso proposta em seu primeiro trabalho, Cícero usa Sábado para fugir do estigma da fama inesperada alcançada com aquela obra lançada há dois anos. Tão introspectivo quanto, se não mais que Canções de Apartamento, este disco busca expressar-se de maneiras diferentes. Murmurante, com sua lírica fragmentada e instrumentação mais complexa, o álbum acaba perdendo muito daquela facilidade que até então era uma das características mais marcantes da musicalidade do artista.

Ainda que mais recluso, Cícero agora não ocupa somente o seu apartamento, mas também os de alguns amigos, o que pode ser visto no tom mais experimental do álbum. De certa forma, o músico sai de sua zona de conforto (representado pelo seu próprio apartamento), se desafiando a ser ele mesmo em outros lugares, às vezes não muito receptivos, mas que ainda assim valem o esforço serem visitados durante esta busca de sua nova identidade – procura ajudada com pequenas participações de músicos como Marcelo Camelo, SILVA, Bruno Schulz, Marcela Vale (Mahmundi) e Luiza Mayall, porém todas aparecendo de forma muito discreta durante as dez faixas do álbum.

E “esforço” talvez seja uma palavra que também se aplique ao ouvinte, que aqui vai se deparar com um trabalho singular e muito diferente do que estava acostumado (ou do que esperava). No fim das contas, esse é um daqueles discos com o qual você provavelmente não irá se encantar logo de cara e que certamente não encontrará nas letras pedaços que possa sair cantarolando por aí ou escrever em seu mural do Facebook, algo que Cícero deixou claro ser sua intenção em uma recente entrevista para o jornal O Globo.

Nada óbvia, esta é uma obra em que você terá de escavar fundo o significado das letras, que alcançam uma subjetividade muito maior que em Canções. Mais uma vez, a relação com a música do carioca se dá de forma tão intima que pode ser apreciada de várias maneiras, desde as mais brandas, até um mergulho completo no vespertino sábado do músico. Esforço, porém, que nem todos estarão dispostos a fazer nesse ponto em que Cícero começa a formar de fato seu público e não ter somente os seguidores de um grande fenômeno como foi seu primeiro álbum.

Com melodias trabalhadas em cima do minimalismo, construído à base de um violão dedilhado e batidas rústicas, aquelas explosões que também eram tão comuns em seu primeiro álbum desaparecem. No lugar da guitarra, que ganhava força durante os refrãos, agora os timbres acústicos se prolongam por toda a faixa, construindo o que parecem esboços das faixas. Se as músicas de Canções de Apartamento poderiam ser comparadas a fotos, as de Sábado são apenas rascunhos feitos a lápis em um papel. Simplicidade que se desenha por todo o álbum e que ficam ainda mais evidentes em músicas como Ela e a Lata, Pra Animar, Bar e Por Botafogo e Porta, Retrato.

Arriscado, esse é um disco que não se pauta em agradar os velhos fãs (e talvez nem mesmo se preocupe em angariar novos), mas em adaptar as experimentações do músico em obra fugaz, assim como o fim de tarde sabático. Não vejo essa como uma tentativa de grandiosidade, porém como fuga disso, uma obra que foge da clausura imposta pelas expectativas do público em cima de seu segundo disco.

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BOM PARA QUEM OUVE: Marcelo Camelo, Wado, Pélico
ARTISTA: Cícero
MARCADORES: Indie Rock, MPB

Autor:

Apaixonado por música e entusiasta no mundo dos podcasts