Resenhas

Deerhunter – Why Hasn’t Everything Already Disappeared?

Com letras surrealistas de Bradford Cox, novo álbum canta o presente de um mundo apocalíptico

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Ano: 2019
Selo: 4AD
# Faixas: 10
Estilos: Indie, Pop Psicodélico, Rock Experimental
Duração: 36:10
Nota: 4
Produção: Cate Le Bon, Ben H. Allen III, Ben Etter e Deerhunter

Chega o final da década e, com ele, a noção de que, ao menos para a música, o apocalipse já aconteceu. Narrativa predominante em álbuns tão diversos quanto numerosos, a ficção pós-apocalíptica da música responde a uma era de ansiedade, provocada pelo uso excessivo redes sociais, pela guinada reacionária da política e pelo colapso ambiental. Gorillaz, Arcade Fire e Oneohtrix Point Never são apenas alguns dos nomes, entre dezenas de outros possíveis, que mostram a concepção amarga que se infiltrou no imaginário musical contemporâneo dos últimos anos.

Ajustando essa visão de mundo ao seu paladar surrealista, a estadunidense Deerhunter entrega Why Hasn’t Everything Already Disappeared?, uma tradução musical resignada, embalando com suas melodias azedas uma sociedade que vive, sem perceber, dentro de uma distopia.

O álbum, gravado na cidade de Marfa, no Texas, ecoa timbres áridos, arenosos e tostados pelo sol. Futurism evoca uma visão que obedece ao progresso, a uma ideia de futuro deveria ter chegado com a máquina e com a revolução industrial. Death in Midsummer, por sua vez, fala de operários que subexistem do trabalho fabril e que, por sua vez, poluem a paisagem da qual dependem. Já Element propõe uma realidade onde “nuvens laranjas desvanecem-se para uma visão tóxica”.

Why Hasn’t Everything Already Disappeared?, neste sentido, está recheado de sintomas e matáforas. A voz em Nocturne sai de uma garganta seca, falhando e decompondo-se em nome da própria estética. Já em Détournement – método de propaganda que desgasta a importância cultural, rompendo a intenção original de uma obra de arte – uma voz robótica impõe-se fria e autoritária (um aceno para as provocações da arte contemporânea de artistas como Laurie Anderson ou Hito Steyerl).

Halcyon Digest ou Monomania já provaram que os trabalhos Deerhunter não são lineares, mas respondem a uma lógica complexa, nos quais cada pergunta suscita justamente uma resposta contraditória. Talvez seja esse o caminho para encarar a pergunta de Why Hasn’t Everything Already Disappeared?. O mundo não acabou de verdade, mas essa ficção proposta pela música nos une em uma mesma angústia coletiva.

(Why Hasn’t Everything Already Disappeared? em uma música: Death in Midsummer)

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Autor:

Discreto e silencioso. Falo pouco, ouço bem, porém.