Resenhas

Elbow – Flying Dream 1

Nono disco coloca a sonoridade nostálgica do Indie 2000 a serviço de momento íntimo para navegar em memórias preciosas dos integrantes

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Ano: 2021
Selo: Universal Music/Polydor
# Faixas: 10
Estilos: Indie Rock, Soft Rock, Art Rock
Duração: 44'
Produção: Craig Potter

É muito curioso perceber como os discos de artistas com longas carreiras são verdadeiras evidências de que o tempo não para. Pode soar como um exercício saudosista, mas avaliar, lado a lado, discos lançados em períodos de 10, 20, 30 anos, dá uma visão mais clara de como um artista se transforma. Não apenas do ponto de vista estético-sonoro ou musical, mas com relação as próprias vivências e temas discutidos nestas canções.

A ideia deste exercício não é fazer uma espécie de ranqueamento dos discos, ou compreender alguma linha de evolução de qualidade artística, mas entender como as subjetividades mudam de acordo com o tempo. Há também a variante do ouvinte, que cresce e muda sua percepção conforme o tempo. Assim, tudo está em constante mudança e, por mais que no âmbito individual e específico seja mais difícil ter essa compreensão macro, quando nos deparamos com uma obra como a do grupo britânico Elbow é que percebemos como as coisas inevitavelmente mudam. É desta matéria-prima, da constante mudança e reflexão, que a banda se apropria para tecer sua mais nova e ambiciosa narrativa até então.

Talvez no Brasil o Elbow tenha ficado obscurecido por bandas mais populares do Indie como Arctic Monkeys, The Strokes e The Kooks. Mas, certamente, estamos falando de um dos conjuntos mais influentes do Indie Rock dos anos 2000. Absorvendo toda efervescência cultural da cena britânica, a banda consolidou sua personalidade em canções que conservavam o romantismo das baladas do final dos 1990, mas também dava um passo adiante em arranjos mais complexos e ousados. Do solitário Cast of Thousands (2003) até o introspectivo build a rocket boys! (2011), a característica que mais rege seu apelo são os arranjos muito bem desenhados que tornam o ouvinte um público que ouve não apenas histórias, mas reflexões pessoais e que tocam o fantástico. A banda nunca foi muito de se render ao modelo cool hipster, jaqueta de couro e guitarra surrada. Mas a sonoridade ríspida do Indie, incrementada com elementos mais polidos, formava uma mistura precisa para que as letras da banda pegassem o ouvinte em cheio. Uma espécie de indie filosófico. Com integrantes beirando a casa dos 50, eles continuam a produzir discos cuja marca da passagem do tempo é uma característica primordial.

Flying Dream 1 é o nono disco de estúdio do grupo e não é exceção à forma como a banda tem composto músicas em seus quase 25 anos de carreira. Há uma justaposição de elementos suaves em baladas com violões e melodias simples com arranjos de cordas envolventes que dão um aspecto quase onírico ao disco. Os sonhos, na verdade, são parte da inspiração do disco, pois trazem à tona muitos dos sonhos que o líder da banda Guy Garvey teve – tanto atualmente quanto quando criança. É neste misto de vivências no mundo real e nos sonhos que o disco ganha o impulso final. Há quase uma aura psicodélica envolvendo todas as canções, mas de uma forma muito minuciosa, pois a estética ainda respeita (e muito) as tradições que a banda fundou desde o começo.

São belíssimas canções feitas para refletir sobre a passagem do tempo e isso aparece no disco de diferentes formas. Os acontecimentos pelos quais a banda repassa dizem respeito à vida adulta e ao envelhecimento, lidando com o tema da morte, casamento, pandemia e família. Assim, as memórias entram em jogo na dinâmica do álbum e a nostalgia está esparramada em todas as canções do disco – da suave “After The Eclipse” até a triunfante “What Am I Without You?”. Porém, perceba que a nostalgia aqui não vem como uma síndrome de tio velho, mas como um movimento natural em que é necessário refletir sobre o passado para seguir em frente: a nostalgia é uma necessidade. O tempo também deixa sua marca na forma como o disco foi produzido – de forma ao vivo e gravado em um teatro de 200 anos na cidade de Brighton. A passagem do tempo está em todo lugar.

Colocar os discos de Elbow lado a lado faz com que Flying Dream 1 seja um dos capítulos mais bem escritos. Longe de ser um epílogo que anuncia a inevitável caminhada para o fim, este é um trabalho de extrema reflexão sobre tudo que foi construído aqui. A forma como somos apresentados aos eventos e às metáforas ganha um status ainda mais emocionante com os arranjos. Neste misto de memória e música é que o título do trabalho dá o sentido final: a vida é como um sonho, que passou muito rápido.

(Flying Dream 1 em uma faixa: “After The Eclipse”)

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ARTISTA: Elbow

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.