Resenhas

Fontaines D.C. – A Hero’s Death

Mantendo a essência, irlandeses incrementam referências, expandem possibilidades e superam com sobras a “síndrome do segundo disco”

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Ano: 2020
Selo: Partisan Records
# Faixas: 11
Estilos: Pós-Punk, Alternativo
Duração: 46’
Produção: Dan Carey

Depois da tempestade vem a calmaria e os irlandeses do Fontaines D.C. remam em outra direção em A Hero’s Death. Musicalmente bem diferente do excelente Dogrel, lançado há pouco mais de um ano, o novo álbum tem a ver com se desafiar sem medo – morrer e renascer munido de mais esperança. E, de quebra, propõe um desafio aos ouvintes que desenvolveram uma espécie de “idolatria” pela banda. Matar esse herói é uma estratégia arriscada e, aqui, ainda assim, exitosa.

Os cinco integrantes, após um ano caótico, parecem carregar certa urgência em desaguar essas canções – e o fazem abrindo novos caminhos, criando novas possibilidades e refutando a ideia de uma autocópia. A primeira versão de A Hero’s Death fora gravada no fim de 2019, em Los Angeles, mas, como dito pela banda em entrevistas, teve um resultado insatisfatório. Com as antigas faixas descartadas, o grupo foi para Londres e gravou o novo trabalho no mesmo estúdio usado em Dogrel. Jogada brilhante.

Em Dogrel, Grian Chatten berra “Dublin” mais de dez vezes. Neste novo trabalho, apenas uma vez, em “Televised Mind” (única sobra da Era Dogrel). Mas não se enganem, as raízes continuam importantes, ainda mais para uma banda que leva no nome as siglas da cidade (D.C. – Dublin City). A capa do álbum pode até não chamar tanta atenção, mas carrega grande significado: a escultura em bronze “The Death Of Cúchulainn”, de Oliver Sheppard, fica exposta no prédio dos correios de Dublin e é uma homenagem aos 20 anos da Revolta da Páscoa (1916).

A peça é um símbolo de patriotismo e orgulho irlandês e começou a ganhar forma em 1912, inspirada na obra de célebres escritores irlandeses, como W.B. Yeats, cuja poesia reverencia a mitologia celta. No poema “The Statues”, Yeats aborda a Revolta da Páscoa e fala que o líder da ação, Patrick Pearse, teria invocado Cúchulainn (o herói que se sacrifica pelos seus) para estar a seu lado na batalha. Chatten é grande fã de Yeats.  O vocalista descobriu a literatura ainda criança, quando o pai firmou o trato de que só o compraria figurinhas de futebol, caso ele recitasse poemas. A partir daquele momento em diante, Chatten desenvolveu forte conexão com a escrita e a arte de contar histórias.

Concebido após o fim da turnê de Dogrel, o novo álbum se escora no clichê nada glamoroso da angústia que vem com o sucesso. Noites sem dormir, comer mal, beber whisky todos os dias, pular de vans em vans viajando de uma cidade para outra. Perder-se pelo calendário e pelos dias da semana. “Living In America”, composição mais claustrofóbica e sinistra do repertório, parece ter sido inspirada nesse eterno, exaustivo e inebriante vai e vem. Foram praticamente 18 meses na estrada, rodando boa parte do mundo para divulgar o álbum de estreia. A impressão é de que o cansaço e a sensação de descolamento da realidade bateram de forma avassaladora – até para eles, jovens de 20 e poucos anos de idade.  “I Don’t Belong”, poderosa faixa de abertura, evoca esse sentimento e soa como a antítese de “Big”, que dá números iniciais ao primeiro disco. Se a antiga canta esperançosa e jovial “My childhood was small / But I’m gonna be big”), a nova entoa “I don’t belong to anyone / I don’t wanna belong to anyone”.

Uma vez ansiando por liberdade, a vontade de explorar novos caminhos surge naturalmente. Em entrevista à NME, Chatten disse ter “vivido dentro de “Your Summer Dream”, do Beach Boys, e na ótima “Sunny” isso fica claro. Ao ouvirmos a penúltima faixa de A Hero’s Death, é fácil desacreditar que aquela banda tocando seja o Fontaines D.C. Novas possibilidades também surgem na faixa-título e carro-chefe do segundo disco. Além de Chatten cantar mais, há mais tempo entre uma palavra e outra, mais respirações e menos desespero nos vocais – boa ideia para evitar o desgaste de sua voz e alongar sua carreira em alto nível. A letra – “When you speak, speak sincere / And believe me friend, everyone will hear” – soa como um statement de uma banda que vem sendo ouvida por cada vez mais pessoas. Ainda que o guitarrista Carlos O’ Connel, em entrevista à Apple Music, tenha dito que a canção não representa o álbum como um todo, embora tenha sido escolhida para intitular o projeto.

O frescor do novo álbum chega manuseado por nomes já conhecidos. Dan Carrey, responsável pelo álbum de estreia, também assina a produção aqui. É interessante pensar que, em Dogrel, a urgência e a tensão apareceram por meio do trabalho de Carey, que acelerou e energizou as primeiras versões de faixas como “Hurricane Laughter” e “Liberty Belle” – disponíveis no YouTube com o subtítulo de “Darkland Version”. Em A Hero’s Death, Carey continua no comando, mas, aparentemente, mais comedido. E funciona: “You Said” traz a voz de Chatten quase angelical e guitarras que remetem a Pixies; “I Was Not Born”, último pique antes da reta final do disco, é guiada por uma bateria enérgica, aos moldes de “The Modern Age”, dos Strokes; e “No” fecha o disco como uma resposta final a todos os questionamentos e incertezas disparados ao longo de 11 faixas. A resposta é “não”, mas um “não”, ainda, cheio de esperança.

A primeira audição pode assustar fãs mais radicais. Mas acalmem-se e acreditem: a cada viagem pelo repertório, o disco só melhora. De qualquer maneira, cabe a você decidir se o herói já está morto e enterrado ou se ele renasce, glorioso, das cinzas. Para o Fontaines D.C., A Hero’s Death é uma etapa fundamental da jornada. O momento em que, após tantas aventuras e provações, o herói se liberta e segue em paz.

(A Hero’s Death em uma faixa: “No”)

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