Resenhas

Four Tet – Sixteen Oceans

Por meio de memórias e colagens sonoras, 10º disco da carreira traz dezesseis possibilidades de investigação afetiva

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Ano: 2020
Selo: Text Records
# Faixas: 16
Estilos: Eletrônica, Ambient, Minimal
Duração: 54'
Produção: Kieran Hebden

Com a crescente popularização da música eletrônica e o surgimento de novos nomes, é incrível como Four Tet permanece absoluto em sua relevância. Em meio a tantas inovações dentro da produção, tantos recursos tecnológicos, Kieran Hebden opta, há mais de 20 anos, por construir universos sonoros fantásticos a partir de configurações de equipamentos bastante simples – quase como uma filosofia de vida budista, pegando a simplicidade acima da crescente complexidade.

Talvez por isso, escutar um trabalho de Four Tet seja por muitas vezes uma experiência que transcende uma escuta estritamente técnica. Projetos como a estreia Pause (2001) e There Is Love In You (2010), considerado por muitos sua obra prima, pegam o ouvinte pela mão, e memórias sensíveis brotam em nossa mente, espremidas entre compassos dançantes e delays envolventes. Assim, com seu décimo disco lançado, Kieran se prepara para entregar uma experiência clássica para o fã de Four Tet, e talvez o momento de tensão que vivemos seja o ideal para ser envolvido pelo talento do produtor.

A primeira percepção fundamental na obra de Four Tet, e que permanece clara em Sixteen Oceans, é como seus discos não trazem necessariamente um tema definido. Em vez disso, temos títulos que sugerem alguns fragmentos, pedaços de memórias, e é justamente nestes espaços, entre os fragmentos, que a magia acontece. Particularmente neste décimo disco, há uma gama variada de sonoridades e timbres, sugerindo construções diferentes a cada instante. Uma hora estamos diante de sons de sinos, em outro momento uma batida de House estanca firme em nossos ouvidos. Sem contar o exímio trabalho de engenharia de áudio, tornando este disco uma verdadeira busca por sons ocultos que pescam nossa atenção entre as diversas camadas.

É curioso que adjetivos como “leve”, “suave” e “simples” sejam comumente escolhidos para definir a obra de Kieran. Porque, ao mesmo tempo, estas mesmas músicas são capazes de moldar uma experiência catártica. Em determinado momento, é preciso largar a mão de tentar decifrar cada elemento a fim de conceber a experiência total. O disco tem pouco menos de 60 minutos e cada faixa procura construir imagens bastante diferentes na nossa cabeça, mesmo que algumas tenham menos de um minuto de duração. Este último fato poderia sugerir que Sixteen Oceans fosse de alguma forma desconexo ou sem unidade conceitual. Entretanto, o que une o repertório é justamente a simplicidade; a forma como as faixas são construídas para que os sentimentos arrebatem de maneira plena e direta.

“School” inicia o registro apontando uma abordagem mais dançante e Club, porém, com poucos segundos, as primeiras melodias são entoadas e sabemos que estamos prontos para uma atmosfera etérea aconchegante. “Romantics” traz elementos percussivos típicos de Four Tet, incorporando sonoplastias de cristais, câmeras fotográficas e até mesmo cravos sintetizados digitalmente. “ISTM” é um daqueles curtos momentos que funcionam como “interlúdio”, construindo a narrativa com mais detalhes, mas também abrindo espaço para que a dançante “Something In Sadness” inunde nossos ouvidos com muitos ecos. “4T Recordings” por sua vez, traz uma abordagem mais próxima da Ambient Music, sustentando onomatopeias em uma cama de sintetizadores longos e quentes. Por fim, “Mama Teaches Sanskrit” não nos deixa dúvida de que, por mais que o disco nos desperte memórias, este também é um trabalho sobre Kieran e suas vivências.

Sixteen Oceans é um trabalho com a marca inconfundível de Four Tet. A imersão nessas 16 faixas dá sentido ao título do disco: são 16 possibilidades de mergulhar em momentos únicos. O isolamento social recomendado durante esses dias talvez seja o momento adequado para entender com profundidade o disco. Um momento em que podemos estar isolados, porém nunca sozinhos. Não com mundos tão ricos – como o de Four Tet – para explorar.

(Sixteen Oceans em uma faixa: “Romantics”)

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ARTISTA: Four Tet

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.