Resenhas

Julianna Barwick – Healing Is a Miracle

Americana cria repertório atmosférico cheio de timbres oníricos e coloca, ciclicamente, o ouvinte em estado meditativo

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Ano: 2020
Selo: Ninja Tune
# Faixas: 8
Estilos: New Age, Post-Rock
Duração: 33’
Produção: Julianna Barwick

Talvez você não perceba quando uma faixa de Healing Is a Miracle termina e a outra começa, ou mesmo se o disco já voltou ao início em um repeat automático. E talvez essa seja a intenção de Julianna Barwick ao criar canções espaciais que repetem os mesmos temas como se eles fossem mantras. Esse estado meditativo acompanha o ouvinte ao longo de toda a audição, ao ponto de a vibe do álbum ser mais marcante que propriamente suas músicas.

Por um lado, o quinto álbum da musicista norte-americana é deveras simples. Ele traz oito faixas oníricas em seus timbres, espacialidade e tempo de desenvolvimento. Aquilo que você escuta logo no primeiro minuto de “Inspirit”, a faixa de abertura, é facilmente reconhecido novamente ao longo da meia hora seguinte de disco. Entretanto, impressiona a maneira com que ela constrói suas músicas com poucos elementos em uma ambientação que fica entre o New Age eletrônico e o Post-Rock.

Não por acaso, Julianna convidou uma das maiores referências dessa intersecção para estar consigo: Jónsi (Sigur Rós) participa de “In Light”, uma das faixas que mais se destacam no repertório. Ao contrário daquelas que a cercam, essa música apresenta percussão demarcada para acompanhar os vocais sobrepostos dos dois músicos – mas sem perder as características já mencionadas da obra. A outra “ovelha negra” do disco é “Flowers”, música que se apresenta tensa com timbres contrastantes entre graves e agudos em um ritmo bem mais acelerado do que ouvimos em suas “irmãs”.

Fora essas duas, Healing Is a Miracle não apresenta muito mais do que isso em questão de “canção” – as participações de Mary Lattimore e Nosaj Thing, inclusive, não são tão perceptíveis se você não tentar encontrá-las nas faixas. Mas, desde o título do disco, temos pistas suficientes para entendermos que se trata de uma obra que se desenvolve para muito além do formato musical, ou ao menos do que esperamos ao apertar o play no álbum.

É aquele tipo de disco que, de fato, demanda uma outra postura do ouvinte, uma espécie de audição ativa que, ironicamente, se deixa ser levada pelas repetições. É uma obra de respirações, de perceber como o som ecoa de um ouvido ao outro e de encontrar beleza na ausência de versos identificáveis, deixando a escuta criar seus significados na própria meditação.

(Healing Is a Miracle em uma faixa: “Healing Is a Miracle”)

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Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.