Resenhas

Kamasi Washington – Harmony of Difference

Músico estadunidense mostra-se um dos grandes nomes do seu estilo

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Ano: 2017
Selo: Young Turks
# Faixas: 6
Estilos: Jazz, Soul
Duração: 31:10
Nota: 4.0
Produção: Kamasi Washington

Kamasi Washington é um gigante. Não digo isso só porque o homem vive num tempo em que o Jazz existe como uma espécie de língua morta musical, mas porque ele seria igualmente importante num tempo de maior criatividade do estilo. Lírico, técnico e emocional, ele é um instrumentista quase completo, mas tem uma enorme vantagem por ser um compositor muito afetuoso, quase romântico. E por saber entender o momento da música popular planetária, inserindo nela o que pode ser/haver de Jazz, dando origem a um resultado altamente moderno, mas acessível, ao contrário do que a maioria das pessoas pensa a respeito do estilo. Tudo isso é perceptível neste ótimo Harmony Of Difference, que surge, caído do céu da boa música. Só nos resta mergulhar nessa lindeza.

Ao contrário do eloquente The Epic, seu disco anterior (triplo), este aqui é econômico. São seis faixas, num total de pouco mais de meia hora de audição. Há uma familiaridade entre os temas, todos orbitando um mesmo fraseado melódico, dando a impressão de estarmos diante de um álbum conceitual de alguma natureza espiritual. E deve ser. Kamasi ofereceu em sua estreia uma visão passional e transcendente do Jazz e ele repete a dose por aqui. Parece que o homem ouviu e se fundiu com as melodias de um dos mais belos discos que o estilo ofereceu ao mundo desde seu surgimento: Ballads, de John Coltrane, de 1963. Aliás, fica a dica do amigo CEL: se quiser começar a se aventurar pelo Jazz, parta de Ballads, uma beleza do início ao fim, mais acessível e afetuoso que qualquer outro trabalho. Ele funciona como uma câmara de descompressão. A partir dele, você estará pronto/a para entender o Jazz.

Pois bem, Kamasi é totalmente Ballads. As canções, interligadas, mostram uma enorme capacidade do sujeito no saxofone e nos arranjos, algo que é decisivo por aqui. A aproximação de estúdio tem orquestra, o básico de baixo/bateria/guitarra, pianos e teclados, dando um revestimento de Jazz Rock setentista ao som, mas no sentido que os álbuns de Santana costumavam ter, especialmente Borboletta e Caravanserai. Uma audição mais cuidadosa, no entanto, vai mostrar que este parâmetro não é totalmente preciso, justo porque Kamasi cria uma abordagem sonora. Espiritual, gentil, quase Soul. Talvez seja isso, talvez seja Jazz Soul.

Não dá pra destacar uma ou outra faixa, sob pena absoluta de cometer uma injustiça capital, mas, já me contradizendo, não dá pra passar batido por Knowledge, talvez a síntese lírica e estrutural do álbum, com uma melodia de sol poente, de fim de filme, de um “sim” dito após muitas tentativas. E não dá pra não se emocionar com a majestade do encerramento com Truth, um colosso de 13:30 minutos de duração, uma apoteose, um nascimento. Kamasi Washington é um grande nome do Jazz e isso precisa ser repetido.

(Harmony Of Difference em uma música: Knowledge)

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MARCADORES: Jazz, Ouça, Soul

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.